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Caetano, a revista e a tropicália. Ou não?

“Tudo a declarar” é o título da bela reportagem de publicada ontem nas páginas da Revista Serafina, encarte mensal do jornal Folha de S. Paulo, com o cantor e compositor Caetano Veloso.

É que lá pelas tantas do texto os autores, Morris Kachani e Artur Voltolini, dizem que “as trajetórias de Caetano e da Tropicália se misturam e são marcadas por fortes contradições”. Vão mais além: propõem um exercício de imaginação:

“Pense numa moqueca. Substitua o peixe pela cultura popular nordestina, pela bossa nova e pelo samba carioca. Os camarões, troque pela música erudita e o jazz. Em vez de leite de coco, derrame o movimento hippie e o rock’n’roll. E no lugar do azeite de dendê, os discursos da Primavera de Praga e de maio de 68 na França. Despeje o caldo, não sobre o arroz, mas sobre a vontade de mudar os costumes políticos, religiosos e sexuais do Brasil. Está servida a Tropicália.”“=

Faltou, no entanto, dizer que tal moqueca só poderia surgir e ser inicialmente degustada em um restaurante chamado São Paulo, que vivia uma feérica efervescência cultural naquele final dos anos 60. Foi nos bastidores da TV Record, líder de audiência com uma programação eminentemente musical, que aconteceu a mistureba de gêneros e tendências musicais. Foi no palco da Record que apareceram, no festival de 67, as duas primeiras manifestações do movimento – “Alegria Alegria” (Caetano Veloso) e “Domingo no Parque” (Gilberto Gil). Não sem motivo, outro baiano, Tomzé, ganhou o festival de 68, com “São São Paulo Meu Amor”.

Só para registro, vale lembrar que “É Proibido Proibir”, que implodiu o Maracanãzinho, defendida por Caetano e os Mutantes, classificou-se para a final do FIC na eliminatória paulistana, realizada no Auditório do Tuca.

Em outro momento do texto da revista, aparece outra questão: de onde veio o bordão “ou não”.

Diz o texto:

“Talvez dessas contradições tenha surgido o bordão “ou não”, tão atribuído a Caetano. Paula Lavigne afirma: Nunca ouvi isso sair da boca dele, deve ter sido inventado da capacidade que Caetano tem de relativizar as coisas.”

O bordão, na verdade, vem da música “Cabeça”, do cantor/compositor Walter Franco, que causou o maior rebuliço no Festival Internacional da Canção, de 1972, dado ao seu experimentalismo mais do que radical.

A letra da música era assim:

“Que é que tem nessa cabeça irmão/
que é que tem nessa cabeça, ou não.
Que é que tem nessa cabeça saiba irmão/
que é que tem nessa cabeça saiba ou não.
Que é que tem nessa cabeça saiba que ela não pode irmão/
que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode ou não
Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir irmão.
Ou não, ou não, ou não…

Detalhe: Walter Franco é paulistano.

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