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Chuva de prata

“São São Paulo, quanto dor…

São São Paulo, meu amor…”

(Tomzé)

Pois então, minha querida cidade, quer saber qual a minha mais tenra – e emblemática – recordação de amor a você? De identificação com o lugar onde nasci e cresci…

Foi no longínquo ano de 1954, quando você engatinhava como metrópole e comemoramos, todos, o seu quarto centenário.

Era pouco mais que uma aldeia, se me permite assim chamá-la. O alcaide de então nos brindou com o que chamaram à época com uma ‘chuva de prata’.

Explico.

No início da noite daquele 25 de janeiro, pequenos aviões (que chamávamos de teco-teco) sobrevoaram a cidade e despejaram sobre as ruas e praças uma infinidade de pequenas lâminas, finíssimas e triangulares, com dizeres alusivos a tão preciosa data.

O ruído das aeronaves em voos baixos e os milhares de radiosos papelotes dançando ao vento chamaram a atenção dos pacatos cidadãos que voltaram os olhares para o céu (ainda sem tantos arranha-céus) e se encantaram com o fenômeno. Uma singela (e artificial) menção de que todos viviam (e ainda vivem?) em um lugar abençoado.

Não preciso dizer, mas digo que, para a garotada, foi um delírio. Apanhar ainda no ar um punhado delas era um feito e tanto diante da turminha. O corre-corre foi generalizado.

Além de um desastrado Tchinim que, na euforia do que via e testemunhava, perdeu-se das mãos das irmãs e tomou um tombaço na valeta aberta na rua de terra batida, enlameando toda a roupa, não se teve notícia de incidentes mais graves.

Mais à noitinha, o pai do garoto arranjou – sabe-se lá como – uma dezena desses mimos e entregou a este paulistaninho de pouco mais de três anos.

Não dá pra dizer o que o menino sentiu naquele instante, mas deve ter ficado bem feliz. E todo prosa.

Acordei cedo. Procurei nas gavetas, nas pastas, nos armários, entre os livros da estante, no meio da coleção de recortes das crônicas do Cony, em tudo o quanto foi canto. Revirei todo o escritório de casa e não encontrei as benditas lembranças.

Estão em algum lugar, não faz muito tempo eu as mostrei a um sobrinho que me visitava. Atônito, perguntou o que eram, o que significavam. Então eu lhe contei essa história.

– Como você lembra disso, tio? Você tinha três anos!!!

– Não lembro, respondi. – Apenas não esqueci…

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