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Do verbo azeitonar

E por falar em Marceleza…

Ele nada tem a ver com a história que vou contar. Mas, não sei o porquê, lembrei do ocorrido no embalo do telefonema que ontem virou post.

Foi o seguinte – dois pontos.

Um dos nossos, Palito, chegou apagado, apagado ao “sujinho” da rua Grenfeeld. Não dizia coisa com coisa. Só entendíamos a frase final das imprecações que saíam da sua boca:

— Azeitonaram a moça.

Alguns se preocuparam.

Aconchegaram-se aos copos e garrafas mais próximos. Sabiamos que, a partir dali, Palito viraria esponja, sorveria tudo o que aparecesse na frente.

Dois ou três – e me incluo entre esses porque Palito detesta Coca Light – quiseram saber mesmo a causa do desespero. Em vão.

— Azeitonaram a moça, balbuciava.

Pelo espanto em seu rosto, projetamos o pior. Manoelito, por exemplo, falador que só, soltou uma das suas.

— Gíria antiga. Quer dizer deram uns tecos. Apagaram. É tiro, gente. Alguma dona foi baleada, assassinada.

Fez-se um silêncio sepulcral naquele boteco onde o Sacoman torce o rabo e os ônibus Fábrica/Pinheiros bufam que bufam na curva.

Saímos devagar.

Fomos para a calçada. Olhamos daqui, olhamos dali – nenhum movimento estranho.

Sacudimos a cabeça um para outro. Era o sinal para voltarmos às mesas.

Palito nos esperava de copo na mão e olho grande em uma garrafa de cerveja.

Insistia, porém, no refrão. Desolado.

— Azeitonaram a moça. A moça, azeitonaram…

Triste, triste. Pegou a cerveja carregou para o seu canto.

— Azeitonaram a moça. Azeitonaram, meu…

Ninguém reclamou. Mas, uma parte do bando tratou de cuidar das cervejas que sobraram. Decidiu largar o amigo à própria sorte. Manoelito, o falador, foi buscar o Nasci, o mestre dos mestres, que estava dando uns perdidos pela região. Deveria estar percorrendo outros bares para repartir seus saberes com mais turbas de malajambrados.

Assim que ele chegou, encostou no balcão, o inefável posto de observação. Alguém se antecipou, ansioso:

— Nasci, azeitonaram a moça.

— Que novidade! Jura? E daí. Não foi a primeira, nem será a última.

Era de se esperar uma resposta assim.

Típica do Nasci.

Nem desfez o mistério, menos ainda explicou a compulsão de Palito. Que aliás acabara de levantar para se abastecer de outra e mais outra estupidamente gelada por nossa conta.

Agora, porém, mais breaco, ele soletrava a razão do drama.

— A-zei-to-na-ram-a-mo-ça…

Houve quem enxergasse lágrimas nos olhos do amigo. Outros disseram que eram os primeiros sinais do porre. Inevitável porre…

— A-zei-to-na-ram-a-mo-ça…

Olhamos para o Nasci. Como resposta, um balançar de ombros e outro enigma:

— A vida é assim, considerados. A malandragem anda solta. Bobeou…

Não lembro quem, mas alguém logo ensaiou um discurso contra a violência das cidades grandes. São Paulo, especificamente. Está um horror. Pobre amigo, Palito devia conhecer a moça ou mesmo ser da família. Mesmo que fosse uma prima distante, era uma perda.

Para nosso espanto, Nasci fez outra ponderação.

— Vai ver, ela até gostou…

Que crueldade. Um homem inteligente como o Nasci, guru e guia, falar desse jeito. Alguém pode gostar de levar um tiro? Sabe-se lá se foi assalto, crime passional ou um mero descuido.

— Descuido? Não sei, não. Às vezes, elas fazem de propósito.

Do que o Nasci estava falando? Ele foi longe demais. O que sabia da história que deixou o Palito de cabeça queimada, murcho, murcho, apagado, apagado.

— Tudo, meus considerados, sei tudo…

Suplicamos para que explicasse, então. Queríamos ajudar no que fosse possível.

— Só se vocês quiserem escolher o nome.

— Como assim? – estranhamos.

— Azeitonaram a moça. Do verbo azeitonar. Derrubar a madame, emprenhar a dona, botar barriga, fazer neném, embuchar, engravidar… Azeitonaram a balconista da loja de ferragens aqui do lado. O Palito morre de amores por ela que nunca quis nada com ele…

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