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É barbada!

Todas as manhãs, chovesse ou fizesse sol, o Anísio invadia a velha redação assoalhada com um palpite inquestionável para o jogo-do-bicho daquele santo dia.

— Sonhei com a minha sogra. É barbada. Vai dar jacaré.

Podíamos estar discutindo a pauta do dia. Da explosão imobiliária da região onde o jornal circulava aos altos e baixos da Bolsa de Valores de Hong Kong. Para o repórter-fotográfico e amigos de todos, porém, nada era mais importante do que os estudos da zoolândia que desenvolvia e, imaginava, lhe garantiriam vida boa até o fim de seus dias.

— Não sou orgulhoso, não. Por isso, reparto minhas dicas com vocês.

II.

Não lhe dávamos muita atenção. Mas, apreciávamos a generosidade do amigo.

— Sonhei que estava num barco em meio ao rio Tamanduateí. É barbada. Vai dar cobra.

III.

Nunca entendemos o rigor científico das previsões do Anísio.

Para ser sincero, duvidávamos da eficácia da fórmula adivinhatória.

Os fatos não nos desmentiam.

Ele errava bem mais do que acertava.

Aliás, raramente acertava.

Mais ao acaso do que pelos tais métodos em que supostamente era especialista.

IV.

Anísio nunca pegou uma grande bolada. Mas, não reclamava.

Gostava mesmo era de explicar tintim por tintim como acertara.

— O leito do Tamanduateí não é cheio de curvas? Então, parece uma cobra. Sonhou com rio joga na cobra.

— E o que tem a ver a sua sogra com o jacaré?

— Toda vez que chego tarde da noite em casa, minha sogra está à minha com os dois olhões arregalados iguais aos dos jacarés quando ficam à flor d’água.

V.

Era divertido ouvir as explicações “científicas” do Anísio.

Dávamos boas risadas.

Mas, nunca nos sentimos atraídos a acompanhá-lo na jogatina.

VI.

Só em uma ocasião fugimos à regra.

Foi naquela manhã em que o Anísio chegou com a cara inchada de sono – de ressaca, provavelmente – e, ao contrário do que sempre fazia, foi monossilábico no comentário:

— Sonhei com um gato. Com um pobre gato que caía do telhado na minha frente.

VII.

Compreendemos o recado.

E, um a um, sem que os outros soubessem, fomos lá na padoca da esquina e cravamos com o Pachecão no felino umas mixarias que tínhamos no bolso.

Imaginávamos seria a salvação da nossa lavoura.

VIII.

À noitinha, o próprio Anísio trouxe o resultado.

Estava alegre que só.

Foi logo dizendo:

Deu burro.

IX.

Como ele nada comentou, resolvemos tornar público o nosso desapontamento e questioná-lo.

— Caramba, Anísio. Fomos na sua conversa – e perdemos o pouco que tínhamos.Você não acerta uma. Sonha com gato e dá burro na cabeça.

— Mas, eu não mandei ninguém jogar no gato, mandei? Falei apenas que sonhei com um gato que caiu do telhado. Agora, gato que cai do telhado, vocês vão concordar comigo: é um gato burro! Além do que, o bicho caiu na minha frente; não na frente de vocês.

X.

E mais não disse por que estava empenhado em contar o montinho de notas com que o bicheiro lhe pagou o palpite feliz que guardou só para ele, um especialista no assunto.

** FOTO NO BLOG: Gabi Nuspl

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