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Fim de Época

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Foto: Arquivo Pessoal

Falemos de jornalismo…

Falemos de jornalismo, antes que acabe.

Uma provocação…

Ou não?

Meados dos anos 70.

Cenário: Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Sala de aula do curso Jornalismo.

Personagens: o professor de Fundamentos Científicos da Comunicação, o chileno José Wilcher, e uma penca de estudantes a desconfiar de tudo o que mestre diz.

Vivamos a cena, caros leitores:

À medida que o professor fala em  portunhol típico, ele desordenadamente rabisca no quadro as palavras-chaves do conteúdo do dia.

De repente, lá está a causa da discórdia:

“CICLO DE VIDA”

Os estudantes se entreolham como a perguntar um para o outro e o outro para o um:

“Como assim?”

A dúvida é conceitual.

O espalhafatoso Wilcher gesticula, risca e rabisca, mas é claro no que diz:

“Assim como tudo na vida, jornais e revistas obedecem a um ciclo natural de existência. Nascem, desenvolvem-se (uns mais, outros menos), atingem o apogeu e…  Bem… e depois declinam e desaparecem. Morrem.”

A  turma continua incrédula:

Quer dizer que títulos seculares como os dos nossos principais jornais e revistas estão com os dias contados?

Dá para acreditar?

“Ah, o chileno e mais um de seus delírios!” – ouço alguém dizer ao meu lado.

Corto para os dias atuais…

Jornal do Brasil, O Cruzeiro, Manchete, Diário da Noite, Diário de S. Paulo, A Gazeta, Gazeta Esportiva, Gazeta Mercantil, Diário do Comercio e Indústria, Diário Popular, Notícias Populares, Última Hora, Jornal da Tarde entre outros tantos.

Esses já se foram….

No final de semana, leio no Portal Comunique-se que a Revista Época será “descontinuada”.

Não me surpreendo.

Descontinuar é o eufemismo que o dito ‘politicamente correto’  usa para atenuar a dura e cruel realidade.

A revista acabou.

Já era!

(Se é que algum dia foi?)

Há todo um arrazoado de razões elencadas pelas Organizações Globo para a imediata adoção de tal medida. Inclusive aquela que destaca: na medida do possível, os profissionais da revista serão alocados em funções equivalentes nas outras plataformas de jornalismo da empresa.

Alguns (muitos), obviamente, vão engrossar a fila e os índices do desemprego.

Elementar, meu caro Watson!

Lamento sempre  o desaparecimento de postos de trabalho, seja qual for a categoria profissional. Pelas razões que todos bem conhecemos:

A corda sempre arrebenta do lado mais fraco.

Lamento um tanto mais (e pessoalmente) por ser jornalista.  Jornalista do texto escrito, do impresso.

Tirante uma breve passagem por uma emissora paulistana como produtor de um programa  radiofônico sobre MPB, sempre trabalhei em jornais/jornais e em uma ou outra revista.

Ainda hoje, vez ou outra, me defino, aqui no Blog, como “um cronista de jornal sem jornal”.

Por essas e por outras, o amigo leitor pode dimensionar meu desalento, sem abrir mão da minha franqueza.

A bem da verdade, ouço o prognóstico de que o jornalismo impresso tende a desaparecer desde os tempos da pós-graduação. Fim dos anos 90, início do século, por aí.

O professor Jacques Marie Joseph Vigneron nos dizia sobre a tal convergência digital, o inevitável declínio dos mass mediasa interconectividade em grau planetário, o poder incontrolável das redes sociais que já ampliavam poderosos tentáculos e as contundentes mudanças dos processos comunicacionais.

Para o sábio e generoso Vigneron, o prazo de sobrevida da turma do papel era de 20 anos.

Ele era um visionário.

“Tem um tempinho ainda” – diziam-me (falsos) colegas de classe em tom de consolo e pilhéria.

Para mim, era simplesmente impossível acreditar.

Naqueles idos, eu assinava três jornais diários e quatro revistas semanais. Trabalhava em um semanário, colaborava com outros tantos.

Enfim…

Como viveria, sem eles?

“Vivendo” – digo hoje laconicamente.

Não assino mais nenhum deles – e me informo, como todo mundo, pela tela do celular.

(Raramente vejo o noticiário da TV. Rádio, só música e no carro. E, olhem: sou das antigas!)

Ao que sei, há ainda alguns títulos que resistem brava e estoicamente.

(Aplausos!)

Mas, reconheça-se, sem o mesmo vigor e notoriedade de outros tempos.

São facilmente suplantados pelos próprios sucedâneos digitais – e sequer falo aqui das alopradas redes sociais (para as quais, ainda guardo a devida distância).

Dias atrás, precisamente no dia 26 de abril, publiquei um texto (Nunca houve nada igual *) em que relembro meus primeiros tempos de repórter, a parceria com o repórter-fotográfico (ora o Cláudio, ora o Waltão), a viatura dirigida pelo Sr. Elizeu, o gosto e a sensação de aventura e comprometimento.

Reportagem na veia.

No mesmo dia, o jornalista e professor Jorge Tarquini fez a seguinte ponderação a partir do post:

“Será que os repórteres da atualidade vão entender o que era sair com sua dupla e um motorista numa viatura para fazer a reportagem?”

Concluímos tristes e nostalgicamente que não.

O repórter anda em baixa, o que é um risco por si.

Privilegia-se o colunismo e o comentário em cima das informações que se obtém pela aí ou – pior! – se inventa ou se faz acomodar aos próprios interesses.

Daí, o meu temor:

Que antes mesmo que o jornalismo impresso, desapareça o próprio jornalismo como expressão das intermediações sociais.

Será o caos e o predomínio do pensamento único, autoritário.

Falemos de jornalismo, amigos.

Até para preservar alguma esperança.

 

 

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