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Já-Já, o amigo de Jânio e nosso (3)

VI.

O amigo repetiu o concerto numa tarde de quinta-feira (dia de fechamento da edição) no saguão de entrada do jornal.

Dá-lhe Cabocla – e à capela.

Era um dia daqueles. Tudo atrasado e o tempo comendo solto. Não conseguíamos parar quanto mais dar atenção aos trinados do Já-Já. Ele se esquecera da malsucedida carreira política, curtia sua aposentadoria e tinha tempo de sobra para investir no projeto do livro sobre Jânio.

Nos intervalos, fazia lá as suas serestas.

Penso que a Redação era um lugar onde se sentia acolhido. Ficava à vontade.

Tão à vontade que naquele dia, como não tínhamos como atendê-lo, resolveu cantar Cabocla à toda voz no local mais inadequado possível.

Num espaço minguado de, sei lá, de 40 metros quadrados, se tanto, juntou oficce-boys, atendentes, agenciadores publicitários, o pessoal que estava anunciando no balcão, quem estava no ponto de ônibus em frente, vizinhos e por aí vai.

Um mundaréu de gente para ouvir o nosso cantante.

Do primeiro andar ouvíamos a confusão – e não quisemos acreditar.

Já-Já transformou em palco o primeiro lance da escada e, àquela altura, sentia-se o próprio cantor das multidões.

Só parou de cantar quando um dos nossos, quase de joelhos, implorou para que nos deixasse terminar o jornal.

Ele aquiesceu – mas, deixou implícita uma ameaça.

— Semana que vem eu volto, gente. Vou trazer um amigo que toca violão.

VII.

Lembro do saudoso Jacob Meyer Júnior, com certa nostalgia dos tempos idos e vividos.

É inevitável.

Tenho a sincera impressão que sonhadores pirados como Já-Já não cabem mais na tal pós-modernidade que, dizem, vivemos.

Sei também que estão em extinção as redações como aquelas que vivi nos anos 70 e 80.

Visitei recentemente a de um tradicional jornal paulistano. Era um silêncio, uma organização, quase uma linha de produção.

Aliás, é preciso que se diga:

Hoje, no primeiro Caboclaaaaaa que um romântico qualquer entoasse no hall de entrada de alguma empresa, qualquer empresa, os seguranças baixariam o cacete sem esperar o segundo verso.

Eu sei que vocês vão dizer que sou saudosista…

Não discordo.

Digo apenas que a vida era mais divertida e solidária.

E saibam: mesmo que nenhum de nós tenha lido o que estava escrito no tal caderno do Já-Jám – e talvez até por isso – demos a maior força para que ele transformasse em livro as tais anotações…

Convenhamos.

Éramos divertidos, solidários e… um bocado cínicos

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