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Meu nome é Pablo

Pablo. Este é meu nome…

Meu saudoso pai (que Deus o abençoe onde quer que esteja) cismou de me dar esse nome, estrangeiro e esquisito.

Dizia ele que foi por causa de um espanhol que andou pelos cantões da Serra da Bocaina quando ele era menino. O cara veio numa tal de expedição para estudar as plantas e os bichos deste esquecido lugar do Brasil.

Tinha fama de sábio.

II.

Para todos, ele dava atenção.

Queria que as pessoas cuidassem dos rios, das cachoeiras, dos animais, das matas.

Dizia que ali era uma espécie de paraíso.

Ficou lá por uns tempos – e se tornou uma espécie de guia dos bocaneiros, como meu pai.

O velho, aliás, sempre recordava “o gringo que entendia das coisas do lugar só de ler nos livros”.

Sabia mais daquelas terras do que aqueles rudes homens que ali habitavam.

III.

Um belo dia, ele e sua turma seguiram viagem nas trilhas das Minas Gerais.

A lembrança do homem virou lenda naquelas paragens. Uma espécie de herói daquela caboclada humilde e perdida no mundão de meu Deus.

Ainda hoje se bater com os costados por lá, vai ouvir os feitos do espanhol nas conversas ao redor da fogueira em noite de céu estrelado.

IV.

O pai era garoto – e o distinto Autor sabe como são os garotos!

Ficou impressionado.

Queria ser igual ao Pablo, ler muitos livros, saber do mundo e das pessoas.

Mas, largo naquele fim de mundo, só lhe coube o dia a dia da roça. Do plantar e do colher. Do colher e do plantar – a árdua rotina de sua sobrevivência.

Quando se foi desta pra outra vida, só sabia mal e mal assinar o próprio nome.

V.

Pois então…

Um pouco deste sonho sonhado, ele realizou no dia em que nasci.

Não teve dúvidas, caminhou léguas e léguas até o cartório de São José do Barreiro (povoado ao pé da Serra) com alegria no coração e uma única certeza: o filho se chamaria Pablo.

VI.

Imagino, tenho quase certeza, viu seo Autor, que o sonho dele é que eu fosse igual ao homem que tanto o encantou quando criança.

Mas, dei de correr atrás de bola, minha paixão desde garotinho.

Não importava de cabular as aulas da professorinha da escola de madeira. Ou mesmo, quando nas partidas que disputávamos nos campinhos improvisados, a bola e a nossa correria estragava as plantas e espantava os animais.

O pai ralhava com a gente. Ameaça bater com as varas de marmelo.

Ficava triste que só.

VII.

Nessas, virei jogador de futebol

E veja ironia, seo Autor…

Fui jogar na Espanha, a terra do homem.

Mas, para a minha surpresa, ninguém por lá conhece o tal Pablo das plantas e dos bichos.

VIII.

Ô mundo estranho!

Quando faço gols e corro para comemorar com a torcida, vejo nos olhos da meninada o mesmo encanto dos olhos do pai quando falava do gringo.

Fico imaginando, se no futuro, alguns desses garotos derem o nome de Pablo aos filhos por causa das minhas jogadas e dos meus feitos.

IX.

Imagino a decepção do menino, se algum dia vier ao Brasil, orgulhoso do nome e perguntar por mim…

… Vai viver a decepção que hoje vivo.

Na minha própria terra, ninguém me conhece.

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