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No osso do caroço…

Os antigos – e quiça verdadeiros – cronistas usavam o transporte público para aferir os humores da opinião pública. Eles próprios usuários do bonde, do ônibus ou do lotação alinhavavam seus textos quase sempre a partir da sintonia com o pensamento que recolhiam do que chamavam de ‘povão’.

Vejam lá nos escritos do grande Rubem Braga, do Lourenço Diaféria, do João Antônio e irão encontrar boas passagens do Brasil de distintas épocas em que o cronista, além de ilustre e anônimo passageiro, é também um bom ouvinte.

Estava hoje no metrô quando me veio essa lembrança – e a dura constatação.

Se o cronista precisasse deste recurso hoje para cavar algum assunto, estaria no osso do caroço.

Tiro uma prova no vagão em que me encontro.

Ele não está lotado de todo. O entre-e-sai a cada parada nas estações é constante. Mas, reina o silêncio entre os passageiros. Ninguém conversa com ninguém, nem os que entram juntos e se conhecem. Aliás, são os primeiros a pegar o celular e tentar uma conexão com a própria rede social. Há os que se embalam ao som da trilha sonora favorita a bordo de seus fones de ouvidos. Um heroico senhor, de mochila e ares de descolado, com um exemplar de, pasmem!, um livro impresso a ler entretido a página aberta a um palmo do seu nariz.

Começa hoje o julgamento final do impeachment da presidente Dilma. A caminho da estação, ainda olhei algumas manchetes dos jornais expostos e pensei: preciso escrever sobre o tema.

Penso que o Brasil dá um passo atrás na sua história.

Por um momento, imaginei colher uma boa história do que este dia representa para o ‘povão’. Talvez o silêncio pesado que paira entre as pessoas no vagão seja a marca da nossa desesperança.

Silêncio, aliás, só quebrado pelo bando de jovens estudantes que agora invadem o trem, de volta para casa, após as aulas. Na verdade, não falam entre si. A euforia toda se dá pela caça aos Pockémons…

A única impressão que me fica é a de que aqueles horrorosos Pockémons de Brasília vão continuar à solta por longos anos. A gente não consegue se livrar deles…

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