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Nome e sobrenome

Marques era um craque com aquele John Fabber na mão. Escrevíamos à máquina em laudas de 20 linhas e 70 toques de margem a margem, espaço quatro. Com letra caprichada, ele corrigia nossos textos de repórteres iniciantes com habilidade tal que no dia seguinte, quando os víamos publicados no jornal, nem acreditávamos que eram nossos.

Como disse em algum texto anterior, Tonico Marques foi o primeiro editor com quem trabalhei, e um professor inesquecível. Vê-lo coppydescar nossas reportagens era uma aula de bom jornalismo. Melhor ainda era o senso de humor e o didatismo da suas brincadeiras com nossos erros mais comuns.

Foi com ele que alguns dos nossos – eu, inclusive – aprenderam a diferenciar mau com u de mal com l. Para tanto, bastou uma sucessão de cartazes espalhados pela redação com o emprego correto das palavras.

Marques nos ensinava os macetes do texto jornalístico – e enfatizava que não devíamos sair por aí ensinando a fórmula mágica do lead e da ‘pirâmide invertida’ porque senão “os leitores vão perceber que não há segredo no texto dos jornais”.

— E acabaremos sem emprego.

Aprendi com o veterano jornalista que se deve usar o sobrenome quando a fonte for do sexo masculino. Primeiro se grafa o nome por inteiro, depois vai se alterando o uso do nome e da função ou alguma característica marcante do indivíduo em questão. Não é uma regra inflexível. Mas, é uma recomendação.

— Nomes de homem são quase todos iguais. João, Antônio, José, Paulo. De repente, na mesma matéria, você pode ter dois Antônio. Então, o cuidado de usar o sobrenome evita confusão – dizia ele.

Era o que devia ter feito quando entrevistei Natal Saliba, um dos membros da clã dos Salibas com grande influência nas entidades representativas do Ipiranga. Fiz uma longa reportagem sobre o campeonato metropolitano de futebol, uma proposta do abnegado esportista que Natal sempre foi.

Jornal nas ruas. A matéria teve boa repercussão. Era uma idéia ótima para a década de 70. Recuperava times tradicionais de São Paulo – Ypiranga, Nacional, Juventus, Comercial da Capital, Portuguesa – além de contar com a participação do trio de ferro (Palmeiras, Corinthians e São Paulo que poderiam jogar com time de aspirantes e assim revelar novos valores), o Santos e o Jabaquara, equipes da Baixada Santista, mas que são parte da história do futebol paulista.

Encontrei o Natal na Lanchonete do seo Osvaldo, ali na Bom Pastor, e fui logo lhe perguntando:

— E aí Saliba gostou da reportagem?

E ele, entre uma dentada e outra no saboroso hambúrguer, foi até generoso. Mas, não deixou de fazer o reparo:

— Ficou ótima. Era exatamente o que eu queria dizer. Só teve um porém.

— Qual? – perguntei ao pressentir algum vacilo.

— No texto, você me chamou o tempo todo de Michel. Michel Saliba é meu irmão, aquele que lhe apresentei no dia da entrevista. Lembra?

Até hoje não esqueci, como bem prova esse post. Outro da série que reverencia os 200 anos da imprensa no Brasil…

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