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O amigo de infância

Uma bela surpresa.

Não acredito quando vejo em meu email o nome do Nestor.

O Nestor, meus caros, é um amigo de infância, dos tempos do Cambuci, que ganhou o mundo ainda pequeno e agora, diz ele, mora na Bélgica.

O mais notável é que o Nestor diz que me achou, via redes sociais. E aí está o grande barato: sou absolutamente ausente das ditas-cujas. O que mostra que o destemido e raçudo volante dos infantil do Botafoguinho, da Aclimação, continua com o mesmo e denodado empenho que já demonstrava nos campinhos de terra batida, dos idos em que éramos garotos.

O cara foi caçando meu paradeiro aqui e ali, um usuário após outro, até encontrar meu endereço eletrônico.

Sua mensagem chegou repleta de lembranças daqueles anos – os rachas no barrancão do Parque da Aclimação, a generosidade do nosso técnico, o João Bicudo (que foi assassinado em um assalto à loja em que trabalhava, na 25 de Março), o Salão da Criança (olhem o que ele foi lembrar), o sábado em que fomos a pé, do Cambuci ao Estádio do Pacaembu, assistir a abertura dos Jogos Pan-americanos de 1963, entre outras peripécias de moleques, felizes e sonhadores, naquela São Paulo que ainda era pouco mais do que uma aldeia.

II.

Àquela época, como agora, embora garotos, já ouvíamos o burburinho de que as coisas não andavam bem e que algo de muito ruim poderia vir a acontecer.

No ano seguinte, veio a Redentora. Que não tirou nosso sono de crianças, mas preocupava nossos pais. Lembro o meu pequeno quarto transformado em dispensa pelo Velho Aldo, meu pai. Os mantimentos eram uma precaução caso houvesse a tal guerra civil (que acabou não acontecendo).

Não recordo exatamente quanto tempo depois (se foram meses ou anos), veio a notícia de que o pai do Nestor estava preso. Não entedemos bem o que havia acontecido. O Sr. Nestor era trabalhador. Todos os dias, nós o víamos, de macacão azul, se encaminhar para a Fábrica de Latas Americanas, onde seu ofício era dirigir uma empilhadeira.

É certo que, em duas ou três vezes, o encontramos à frente de uma leva de trabalhadores que se encaminharam para o Largo do Cambuci, onde se encontrariam com outros operários para ouvir o discurso de não sei quem.

III.

Foi a primeira vez que ouvi a palavra “greve” na vida.

O Nestor andou tristonho naqueles dias.

A mãe dele, então, desesperou-se com a prisão.

Os adultos pediam para que a gente não tocasse no assunto com o nosso amigo.

“As crianças, por vezes, são cruéis em suas brincadeiras”, lembro-me de ouvir a mãe dizer. “Nem o garoto, nem a família merecem”.

IV.

Aí que nada entendi. O homem era preso – e qual o motivo?

“Isso não é assunto de criança”, disse o pai. “O Sr. Nestor não fez nada de errado, é um homem de coragem – e basta”.

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