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Quando o dia clarear…

Quando lhe falta assunto, o cronista precisa única e simplesmente de uma janela.

A frase é conhecida, manjada nas rodas do velho jornalismo – porém, de grande valia.

Ora direis, caríssimo leitor, o que não nos falta nesses tempos bumbásticos (isto mesmo, de bumbo; creio que estamos fazendo muito barulho por nada;somos todos iguais nesta noite, diria Ivan Lins) são assuntos, e polêmicas: o pós eleição, os jogos da rodada, o dólar, a alta dos juros, quem será o novo ministro da Fazenda, a namorada da Fulana que está presa em Tremembé e não por aí vamos.

Quer dizer, dois pontos, aspas para mim mesmo:

“Vai quem quer, eu não!”

II.

Desses palpitantes temas e outros mais, o noticiário dá conta.

Nenhum deles, porém, apraz o cronista que virou blogueiro por obra do acaso e que, por aqui, todos os dias, escorrega suas bobagens em alinhavos.

Ele (o cronista/blogueiro) acorda no meio da madrugada e se põe diante da janela. Do décimo nono andar do edifício onde mora e se esconde, olha os pontos de luz esmaecida da cidade em silêncio.

Espanta da mente os compromissos (e as aflições) que o dia lhe reserva e pensa no que escreverá logo mais quando o dia clarear.

“Quando o dia clarear”, a expressão é própria a velhos sambas.

III.

Todo cronista, de boa cepa, é um inveterado romântico.

Lembra, pois, o grande Paulinho da Viola (que nossas rádios burramente se esquecem de tocar) e o mais lindo dos sambas dolentes – “Coisas do Mundo, Minha Nega”.

Quanta verdade num verso simples!

“Hoje eu vim, minha nega
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo a forma de se viver
As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender”

IV.

A pensata, então, lhe é inevitável.

Quase nunca nos damos uma trégua da lida.

Acordamos aos sobressaltos e tocamos em frente até o próximo embate, até a próxima eleição.

Acho que é isso que o cronista quer hoje lhe propor, caro amigo; um momento de paz a lhe invadir o coração (salve Gil!), de serenidade, com você mesmo.

Vai lhe fazer algum bem.

V.

Olha, neste exato momento, quando a noite se encaminha para a luz, sou capaz de identificar, distante, o ronco de um solitário veículo que toma seu rumo e, acreditem, o cantar nostálgico solidário de um sabiá…

Não é muito, mas me faz um bem danado.

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