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Sem fundos

Amigos, acabei de ser informado: estou sem fundos…

Como assim?

Explico logo para por fim a especulações indevidas e desnecessárias. Explico também para, de alguma forma, refletirmos juntos sobre minha indignação. Aliás, permitam-me, sentimento que deve ser o mesmo de outros tantos milhões de brasileiros na hora exata em que somos informados, pelo o contador ou alguém que o valha, do tamanho da dentada que o tal Leão do Imposto de Renda vai dar em nosso parco dinheiro.

Já perceberam do que falo, não?

Pois é. Pagar durante o ano todo paguei. Mas, mesmo assim, o bicho veio bravo, voraz – e abocanhou os trocados que me restavam no banco. Não eram muitos, não. Mas, olha, subi e desci, fui e voltei, pra lá e pra cá – tudo para sobrar algum que me permitisse uma santa folguinha nas contas do mês. Até que estava indo bem. Janeiro, fevereiro, março, abril. Fechei a mão o quanto pude. Mas, lá do outro lado da linha, a voz é pacienciosa, mas firme:

— É tanto…

Do lado de cá, acuso o golpe. É o rapa. Então, tento espernear. Fiquei sem chão. Respondo que é impossível. Tem algum equívoco aí. É um absurdo. Não vou pagar e outras broncas mais.

Na verdade, brigo comigo mesmo. Como se nada ouvisse, o contador continua com as explicações cabíveis, como se não fosse com ele. Na verdade, não é mesmo. Mas dá até para entender. Afinal, creio até que, antes de começar o período de declarações do imposto de renda, esses senhores reúnem-se num mosteiro budista e preparam-se para as mais escrachadas reações de seus clientes. Imagino que seja assim. Todos devem reagir como eu diante de notícias tão desastrosas – e que só eles podem nos dar.

— O senhor vai pagar em quantas vezes…

Tal e qual uma tilápia no anzol, entregue à própria sorte, cansada de me debater em vão, curvo-me diante do insondável destino de todos nós, assalariados. Morremos na praia do sonhar.

— Em quantas pode? – respondi

— Até em oito vezes, mas aviso que haverá juros reajustáveis mês a mês…

Nova sessão de impropérios da minha parte, como se ele fosse culpado. Em vão. O monge-contador continua até que generoso.

— Fazemos em quantas, então…

— Em oito.

Desliguei o telefone. E ele, apiedado da minha sorte, até agradece minha atenção, e não revela quanto vai cobrar pelos seus serviços. Fico até sem graça da minha falta de polidez. Mas, ele deve entender. Mesmo assim continuei a ruminar o indigesto capim. Não vou nem entrar na questão da aplicação do quanto me tungaram. Não vou falar do salário dos deputados, dos gastos do Pan, da farra dos programas sociais, da tal Lei Ruanet, enfim – deixa pra lá…

Deixa pra lá senão me irrito mais.

Não sei porque lembrei de um antigo filme da Atlântica. A Dercy Gonçalves era uma pobretona, endividada até às tampas. Passa o filme todo para fazer valer seus direitos de única herdeira de um parente distante e milionário. Depois de muitas atrapalhadas, consegue por a mão em uma substancial dinheirama.

Neste exato momento, forma-se uma roda de credores ao redor. À medida que quita as suas dívidas, a pilha de dinheiro vai baixando, baixando… Até que ela fica apenas com um chumaço de notas na mão.

Os credores foram embora felizes. Só restou um mendigo, de olho grande no dinheirinho.

— Ta olhando o quê – pergunta Dercy que, aliás, sequer espera a resposta. Dá o dinheiro para o coitado e fica a zero, com cara de otária:

— Pega logo e some, antes que apareça mais alguém…

Não sei se me deixei influenciar pelo enredo. Sei que liguei para o contador – e fiz a ressalva:

— Mudei de idéia. Vou pagar tudo de um só vez.

Ele não perguntou. Mas fiz questão de explicar:

— Já imaginou durante os próximos oito meses, quando for pagar a cota, reviver a mesma sensação de hoje, de que estou sendo espoliado…

Nesse filme chamado vida, quando o cenário é um tal País de nome Brasil, trabalhamos o ano inteiro. Mas, ao imaginarmos protagonista da história, percebemos logo que fazemos sempre o papel de otário. E, coitados, ficamos sempre sem nenhum.

Vida que segue…

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