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Tudo o que não sei contar

Dizem que há uma diferença – para muitos,
imperceptível – entre nostalgia e melancolia.

Dizem…

Penso que o dito faz sentido.
E repasso a vocês
como a coisa funciona sem consultar
fontes especializadas.

Vamos ver se entendi…

Nostalgia é a doce lembrança de um tempo
que se viveu – e nos é caro ainda hoje.
Do que se fez, do riso que riu,
do amor que se amou. Por tudo e por nada,
naturalmente se esgotou
no girar das horas e do planeta…

Melancolia é diferente.
É a recordação que traz em si o travo amargo
do que poderia ser e não foi. Do que se fez vazio.
E tome um tantinho de mágoa, outro quase
arrepender-se. Dói lembrar, custa-se acreditar…

— Por que não me chamaram para
ser ministro de Coisa Nenhuma, meu Deus?

II.

Antes que me dêem por um melancólico
e nostálgico tantã. Vou justificar os parágrafos
acima, com fatos que marcam este 25 de janeiro.

Nostalgia pura, de fina cepa é lembrar
o maestro soberano Tom Jobim que, se vivo
ainda fosse, completaria hoje 80 anos de vida.
Só a lembrança das canções de Tom – ao lado
de João Gilberto, um divisor de águas
na história da MPB – nos envolve com um
sentimento bom de alguém que faz muita falta,
mas está sempre presente. A trilha da novela Páginas
da Vida que o diga. Ou que o cante, com Wave.
Modestamente, para este desconjuntado cronista,
a melhor de Tom. E o resto é mar,
é tudo que não sei contar…

III.

Embora cinquentão, inveterado cultor dos anos 70,
vejo com o toldo abafado da melancolia
esse revival da banda Mutantes (mais Zélia Ducan).
Eles se apresentam hoje no Museu do Ipiranga,
em show de aniversário da Cidade e anunciam
— com repertório repleto dos hits travessos daqueles
findos tempos — uma turnê que vai percorrer o País.
Pode ser rabugice minha, como entendeu ontem
um aluno ao perguntar sobre o que veterano aqui
achava desse retorno.

— Poxa, você viu eles tocarem. Eu, não, né…

Dei de barato, e não respondi. Ele não entenderia.

Não viu, e não verá…

Os legítimos Mutantes existiram – e faziam sentido –
naqueles anos de repressão, angústia e alguma crise
existencial. Eram um grito de alegria, de liberdade e
a promessa de que ser jovem fazia sentido. Ademais,
traziam a magia/encanto de uma loirinha sapeca,
que atendia pelo nome de Rita. Rita Lee Jones.

IV.

Nostalgia é ter na parede da memória
uma foto da pacata São Paulo antiga, quando
o velho Aldo levava a família – no sábado
que era po$$ível – comer pizza no restaurante
Papai em plena Praça da Sé…

Melancolia ao ver o que foi feito
daquela doce cidade, o perigo em cada
esquina, os congestionamentos, a poluição
sonora, do ar, dos rios… A pichação, os monumentos
abandonados, o avesso do avesson do avesso…
O que poderia ser e não é… Nem será…

V.

Nostalgia é contemplar a fotografia
do velho Aldo na estante do quarto,
da dona Yolanda, minha mãe. O preto e branco
salta da moldura para colorir diariamente
meus dias e dúvidas e conquistas. Também
consola-me, com olhar de bençãos,
as tristezas inevitáveis…

Melancolia é lembrar o dia – lá no mais
antigo dos anos – em que piquei aquela foto
em mil pedaços e, implacável, joguei-os, todos,
no cesto de lixo… Duro foi, no outro dia
encontrar sobre a mesa de trabalho um pedacinho
daquele papel. Num gesto de rebeldia, o sacana
escapou do cruel destino. Estampava
um par de olhos inesquecíveis,
com a mesma promessa dos tempos
em que acreditei ser feliz…

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