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Um cara muito especial (3)

Almeidinha era tímido, mas nunca foi santo, embora ultimamente e por força das circunstâncias andasse no caminho, digamos, da beatificação. Desconfiou que talvez pudesse reviver os bons tempos em que, mesmo tímido, era o Rei das Cantadas – e cantou:

— Vida, sonhos, amores… Complicado, hein! Acho que você precisa mesmo de um professor.

Ela também sabia jogar o jogo e a resposta não poderia ser mais sugestiva:

— Você conhece algum?

Fez-se um silêncio cúmplice e gostoso entre ambos.

Pena que alguns desavisados quebrassem o clima ao se aproximarem para, sem serem chamados, participar do assunto que em nada lhes dizia respeito.

— E aí os dois de segredinhos? Também queremos saber das novidades…

Ambos sentiram-se desconfortáveis com a presença dos inconvenientes que, por persistirem ali, se tornavam mais inconvenientes ainda.

Ela então se levantou como se houvesse dado a sua hora.

— Vou indo… Foi um prazer revê-los.

Olhou para Almeidinha – e só para o Almeidinha – e antes de partir disse:

— Eu volto pra gente terminar esse papo, mestre.

— Atrapalhamos alguma coisa? – comentaram os obtusos rapazes, assim que a moça se afastou.

Insinuaram desculparem-se pela obtusa intromissão, mas ele dispensou a hipocrisia dos idiotas e fez um sinal com as mãos que estava “tudo bem”.

No preciso momento em que se viu só, o homem das gravatas fininhas, fininhas, de cores sóbrias, que mal escondiam as marcas indeléveis do coração apaixonado, lamentou que não haveria a tal volta. Já vivera o suficiente para saber que há coisas que sim e outras que não.

Ademais, como ele gostava de dizer, estava naquela idade em que tanto faz o sim ou não das coisas.

** FOTO NO BLOG: Bariloche/arquivo pessoal

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