{"id":10560,"date":"2007-03-30T00:00:00","date_gmt":"2007-03-30T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:58:25","modified_gmt":"2017-09-15T19:58:25","slug":"meu-periquitinho-verde","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/meu-periquitinho-verde\/","title":{"rendered":"Meu periquitinho verde"},"content":{"rendered":"<p>Se meus olhos de crian\u00e7a que adorava o pai n\u00e3o me enganam, deve estar uma bagun\u00e7a danada naquele peda\u00e7o de C\u00e9u, onde hoje se re\u00fane a turma do Bar Ast\u00f3ria que, em sua vers\u00e3o terrena, existiu at\u00e9 o fim dos anos 60 na esquina da rua Lavap\u00e9s com a Justo Azambuja.<\/p>\n<p>Era l\u00e1 que os italianos e seus descendentes se encontravam, uma noite sim e a outra tamb\u00e9m, para discutir futebol, apostar clandestinamente nas corridas de cavalo e jogar patr\u00e3o e sotto \u2013 uma competi\u00e7\u00e3o entre eles, estranh\u00edssima. E o que valia? Valia um copo de cerveja e um gesto de amizade. Ao final, d\u00fazias e d\u00fazias de garrafas vazias sobre o balc\u00e3o de m\u00e1rmore. Alguns sa\u00edam tran\u00e7ando as pernas de b\u00eabados \u2013 e eram os vencedores. Outros sequer molhavam os bei\u00e7os, mas tamb\u00e9m arcavam com o preju\u00edzo da conta.<\/p>\n<p>Era mais ou menos assim: todos a postos ao redor das mesas enfileiradas, colocavam dedos. Um deles fazia a contagem em voz alta. O sorteado tinha o direito de beber um copo de cerveja e oferecer outro a quem desejasse. Ou seja, o patr\u00e3o e o sotto. Os demais s\u00f3 assistiam. Nova cerveja em jogo. Nova rodada \u2013 e assim passavam horas e horas. Em meio a parcerias, gritaria, disputa e muita fraternidade num tempo que se perdeu no mais antigo dos anos.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o estou aqui para falar s\u00f3 deste jogo t\u00edpico dos italianos do Cambuci. Quero imaginar essa pl\u00eaiade de senhores \u2013 Aldo, Carlito, Gar\u00f3falo, Patara, Armando, Floriano, Milton, Arlindo, entre outros \u2013 a cortar as alamedas divinas entoando uma velha can\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u201cMeu periquitinho verde tira sorte, por favor.<br \/>\n Eu quero resolver esse caso de amor&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Certamente, a esta altura do tempo \u2013 embora l\u00e1 n\u00e3o haja nem altura, nem tempo que \u00e9 uma conven\u00e7\u00e3o dos mortais &#8211;, eles j\u00e1 atiraram para o ar os chap\u00e9us Ramenzzoni, afrouxaram o n\u00f3 cl\u00e1ssico das gravatas, penduraram o palet\u00f3 de corte perfeito em algum cabide de nuvem e ca\u00edram na gandaia mais do que merecida&#8230; <\/p>\n<p>At\u00e9 porque sempre souberam: a verdade um dia seria restabelecida em toda sua magnitude. Afinal, est\u00e3o no C\u00e9u, um lugar de gente s\u00e1bia e virtuosa. Ali\u00e1s, se minha alma nost\u00e1lgica estiver certa, o Ald\u00e3o, meu pai, j\u00e1 ter\u00e1 dito:<\/p>\n<p>&#8212; Antes tarde do que nunca .<\/p>\n<p>No que o Armando, de imagin\u00e1rios cabelos retintos para esconder os imagin\u00e1rios grisalhos que j\u00e1 n\u00e3o existem, lembrar\u00e1:<\/p>\n<p>&#8212; Aquela viagem foi mesmo inesquec\u00edvel, camaradas.<\/p>\n<p>Patara, o despachante, ir\u00e1 ponderar: <\/p>\n<p>&#8212; Pena que o Rio de Janeiro n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. Dizem que l\u00e1 acontecem coisas escabrosas.<\/p>\n<p>No que o joalheiro Floriano prontamente rebater\u00e1:<\/p>\n<p>&#8212; O mundo n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. Mas, hoje, n\u00e3o \u00e9 dia de tristeza, gente.<\/p>\n<p>E o velho Felipe Gar\u00f3falo, o cantor, retomar\u00e1 a marchinha de um antigo Carnaval, que se fez hino daquela e de outras gentes.<\/p>\n<p>\u201cMeu periquitinho verde tira sorte, por favor.<br \/>\n Eu quero resolver esse caso de amor.\u201d<\/p>\n<p>O que esses circunspectos senhores est\u00e3o comemorando?<br \/>\nOra, ora meus cinco fi\u00e9is leitores&#8230; <\/p>\n<p>Comemoram a not\u00edcia do dia, do ano, do s\u00e9culo, do mil\u00eanio: <\/p>\n<p>PALMEIRAS, CAMPE\u00c3O DO MUNDO.<br \/>\nPrimeiro e \u00fanico. <\/p>\n<p>Afinal, a rapaziada, que hoje est\u00e1 l\u00e1 em cima, foi ao Maracan\u00e3 em 1951. Viram o Palestra vencer a Juventus, da It\u00e1lia, e resgatar a esperan\u00e7a \u2013 que \u00e9 e sempre foi verde \u2013 de um povo que, ano antes, sofreu a maior derrota esportiva de sua hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>Assim que chegar em casa, vou procurar o len\u00e7o comemorativo da conquista. Tem as bandeiras dos pa\u00edses participantes e um periquito, verdadeiro s\u00edmbolo do Verd\u00e3o, com o mundo nas m\u00e3os. O Ald\u00e3o trouxe do Rio de Janeiro e, detalhe, n\u00e3o h\u00e1 qualquer patroc\u00ednio nem logomarca de emissora de TV. <\/p>\n<p>Reviro os arm\u00e1rios \u2013 e o encontro.<\/p>\n<p>PALMEIRAS, CAMPE\u00c3O DAS CINCO COROAS <\/p>\n<p>Uma explica\u00e7\u00e3o. Naquele ano o Palmeira foi campe\u00e3o de todos os torneios dos quais participou &#8211; e que agora n\u00e3o sei de cor, mas amanh\u00e3 estar\u00e1 em todos os jornais. <\/p>\n<p>A\u00ed, sim, solenemente o entregarei ao Rodolfo, meu filho. Com a certeza de que o velho Aldo continuar\u00e1 olhando por n\u00f3s. E sorrindo de um jeito que s\u00f3 ele sabia sorrir&#8230;<\/p>\n<p>Isso, \u00f3bvio, se meu cora\u00e7\u00e3o de filho saudoso resistir&#8230;<\/p>\n<p>* Para os felizes: Walter, Z\u00e9 Carlos, Aldinho, Beto, Marcelo, Rodolfo, Nico, Dimitri, Cacau, Hilias, Renatinho, querid\u00edssimos palmeirenses das fam\u00edlias Martino, Gar\u00f3falo, Avezzani, Chisolini, Leone&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro \u201cVolteios &#8211;  Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios\u201d]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se meus olhos de crian\u00e7a que adorava o pai n\u00e3o me enganam, deve estar uma bagun\u00e7a danada naquele peda\u00e7o de C\u00e9u, onde hoje se re\u00fane a turma do Bar Ast\u00f3ria que,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10560","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10560","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10560"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10560\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17330,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10560\/revisions\/17330"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10560"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10560"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10560"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}