{"id":10684,"date":"2007-07-23T00:00:00","date_gmt":"2007-07-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-08-28T14:29:05","modified_gmt":"2018-08-28T14:29:05","slug":"nao-sei-se-sei-integra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/nao-sei-se-sei-integra\/","title":{"rendered":"N\u00e3o sei se sei (\u00cdntegra)"},"content":{"rendered":"<p>Amiga:<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se sei escrever um texto sobre o tema que voc\u00ea me prop\u00f4s. A hist\u00f3ria de um homem e uma mulher que se encontram num determinado momento, sentem-se atra\u00eddos um pelo outro. Apesar das diferen\u00e7as de idade e de expectativas, admitem a possibilidade de ambos viverem um sentimento \u00fanico e rec\u00edproco. Mesmo assim \u2013 ou talvez por isso mesmo \u2013 resolvem ignorar o envolvimento e fazer o que a sociedade espera deles, inclusive eles pr\u00f3prios se convencem disso e, assim, seguem rumos diferentes.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, vida afora, um n\u00e3o esquece o outro. O outro n\u00e3o esquece o um.<\/p>\n<p>Rolam as pedras do tempo, surge a internet e o casal retoma o contato.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 qualquer chance de partilharem juntos o mesmo caminho. Vivem com as respectivas fam\u00edlias \u2013 e a dist\u00e2ncia \u00e9 enorme. Ele num estado cosmopolita, ela muito al\u00e9m do perder de vista.<\/p>\n<p>Um absurdo. Mas, os dois sabem que o melhor momento do dia \u00e9 quando sentam \u00e0 frente da tela do computador e buscam not\u00edcias daquele amor de ontem. Sem presente, sem futuro. M\u00e1gico no enfileirar de palavras, promessas e desejos. Mesmo que os dois \u2013 isto mesmo, os dois \u2013 saibam que jamais ser\u00e3o plenamente vividos.<\/p>\n<p>O que faz um senhor quase setent\u00e3o e uma jovem senhora se apegarem a esse \u2018brincar de viver\u2019 que, na pr\u00e1tica, \u00e9 uma baita ilus\u00e3o do que poderia ser e n\u00e3o foi, n\u00e3o \u00e9 e nem ser\u00e1?<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Amiga:<\/p>\n<p>Se entendi bem, foi que dissertasse sobre isso o que me pediu\u00a0 naquela tarde de junho. Como v\u00ea, resisti e ainda resisto a escrever sobre&#8230; Repito, n\u00e3o sei se sei. Ali\u00e1s, de resto, sei que ningu\u00e9m sabe. Nem esot\u00e9ricos, nem psicanalistas, nem os s\u00e1bios do deserto. Porque o amor \u2013 e os relacionamentos \u2013 tem l\u00e1 suas peculiaridades. Um punhado de luz que faz verter o melhor da vida da gente e outro tanto de lamban\u00e7as que d\u00f3i no corpo e r\u00f3i a alma.<\/p>\n<p>Olha, para ajudar a explicar o que penso (mas, n\u00e3o tenho qualquer certeza), vou tomar como refer\u00eancia tr\u00eas filmes. N\u00e3o ganharam Oscar, n\u00e3o lotaram casas. N\u00e3o mereceram cr\u00edticas como obras transcendentais. No entanto, nunca sa\u00edram da minha mente como toques interessantes para bem entender as surpresas da vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o nome de ningu\u00e9m. Diretores, atores etc etc. Sei apenas que se chamam:<\/p>\n<p>\u00b7 <em>O Marido da Cabeleireira<\/em><br \/>\n<em>\u00b7 O Perfume de Lucyenne<\/em><br \/>\n<em>\u00b7 Puerto Escondido.<\/em><\/p>\n<p>Os dois primeiros s\u00e3o franceses. O terceiro, italiano \u2013 com um ator grandalh\u00e3o e engra\u00e7ado que fez tamb\u00e9m Mediterr\u00e2neo e Concorr\u00eancia Desleal.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, se algu\u00e9m souber a ficha t\u00e9cnica dessas produ\u00e7\u00f5es fique \u00e0 vontade para postar nos coment\u00e1rios. Importante: s\u00f3 a ficha t\u00e9cnica, ok? Porque amanh\u00e3 eu escrevo sobre o enredo dos filmes e o que nos ensinam.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>O <em>Marido da Cabeleireira<\/em> \u00e9 um drama. Conta a peculiar hist\u00f3ria do homem que sonhava em se casar com uma profissional da tesoura, digamos assim. \u00d3bvio que havia motivo. Quando crian\u00e7a, a m\u00e3e o levou num sal\u00e3o feminino e a senhora que o atendeu \u2013 digna figura felliniana \u2013 deixou entreabertos alguns bot\u00f5es da parte superior do avental, o que projetou fartas imagens nunca mais esquecidas pelo protagonista. As flagr\u00e2ncias, o ro\u00e7ar dos seios no seu ombro&#8230; Momentos inelut\u00e1veis, enfim.<\/p>\n<p>Homem feito, cinquent\u00e3o de cabelos retintos, encontra finalmente a mulher dos sonhos. Uma cabeleireira, de formas insinuantes e olhar triste. Casam-se numa cerim\u00f4nia simples e vivem em perfeita harmonia. T\u00e3o perfeita que um dia, ap\u00f3s amarem-se lindamente, ela resolve tomar uma atitude dr\u00e1stica que vai separ\u00e1-los para sempre.<\/p>\n<p>(*) No fim do texto de amanh\u00e3, eu digo qual \u00e9. Se algu\u00e9m quiser assistir ao filme, melhor n\u00e3o ler a Nota do Autor.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>O<em> Perfume de Lucyenne<\/em> \u00e9 menos contundente. Mas, igualmente emblem\u00e1tico de como n\u00f3s \u2013 verdadeiros estraga-prazeres do que a vida nos d\u00e1 de m\u00e3o beijada \u2013 teimamos em n\u00e3o entender o caminho da tal felicidade.<\/p>\n<p>A bela e remediada Lu \u2013 se me permitem a intimidade \u2013 quer o mundo e um pouco mais. Encasquetou com a ideia de ser atriz de cinema. Um dia encontra um homem que lhe vira a cabe\u00e7a. \u00c9 um bonit\u00e3o. Sonhador e aventureiro. Divertido. Vive o presente de forma intensa. N\u00e3o pensa no futuro. Sequer sabe aonde vai estar amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Encontram-se casualmente num hotel e ele lhe diz que n\u00e3o consegue fazer planos. Apenas vive. E como? Ora, amparado por uma consistente heran\u00e7a de fam\u00edlia. Hoje, est\u00e1 aqui, amanh\u00e3 ali. E assim segue sem destino.<\/p>\n<p>Apaixonam-se e caem no mundo. Mesmo nos momentos mais felizes, Lu tem uma pontinha de tristeza no olhar. O sonho \u2013 ou a bobagem \u2013 de ser atriz que n\u00e3o realizou.<\/p>\n<p>Preciso dizer que o dinheiro acaba? Mais dia, menos dia, iria acontecer. L\u00e1 se vai todo o encanto. Tolinho, o sonhador aventureiro diz que n\u00e3o faz a menor diferen\u00e7a. Resta-lhe o suficiente para pagar a passagem de ambos rumo aos Estado Unidos. Hollywood, precisamente, onde ela tentar\u00e1 a carreira com que tanto sonha. Eles se amam \u2013 e \u00e9 s\u00f3 o que interessa.<\/p>\n<p>Pois sim.<\/p>\n<p>&#8212; Como vamos nos sustentar? \u2013 ela pergunta.<\/p>\n<p>&#8212; Trabalho at\u00e9 de entregador de pizza. Quero v\u00ea-la feliz. S\u00f3 assim serei feliz tamb\u00e9m \u2013 diz o incauto rapaz.<\/p>\n<p>Amam-se perdida e loucamente naquela noite.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, por\u00e9m, cad\u00ea Lucyenne?<\/p>\n<p>Algu\u00e9m a\u00ed sabe da mo\u00e7a?<\/p>\n<p>(*) Vejam tamb\u00e9m amanh\u00e3 em Nota do Autor, se quiser saber o que a mo\u00e7a fez.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p><em>Puerto Escondido<\/em> mistura com\u00e9dia e aventura. Trata-se da hist\u00f3ria de um bem-sucedido gerente de banco na It\u00e1lia. Ele preza bens materiais como impec\u00e1veis ternos Armani, gravatas de seda, o rel\u00f3gio Rolex, o Golf do ano e os cart\u00f5es de cr\u00e9dito. Ah! Essas maravilhas que tudo nos permitem. Ou seja, curte todos os valores de uma sociedade consumista. Inclusive, deixa para um plano secund\u00e1rio o envolvimento com uma bela donna.<\/p>\n<p>Tudo caminha bem at\u00e9 que um dia qualquer, no banheiro de um restaurante chique, ele \u00e9 testemunha do assassinato de um comiss\u00e1rio de pol\u00edcia por uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa \u2013 ou vice-versa. Arma-se ent\u00e3o uma tremenda confus\u00e3o. H\u00e1 diversos interesses em jogo. Por isso, ele se v\u00ea for\u00e7ado a fugir do Pa\u00eds \u00e0s pressas, pois corre o risco de tamb\u00e9m ser eliminado. Assim, ele \u00e9 despachado \u2013 sem direito a explica\u00e7\u00f5es \u2013 para uma ilha nos arredores do M\u00e9xico, a tal Puerto Escondido.<\/p>\n<p>Na cena seguinte, vemos nosso her\u00f3i dentro de um daqueles \u00f4nibus antigos, chamados \u2018jardineiras\u2019, lotado de nativos, bagagens fuleiras, caixas, galinhas, porcos, entre outras bugigangas. Sem saber o motivo que o levou ao ex\u00edlio, o mo\u00e7o precisa recome\u00e7ar a viver num lugarejo primitivo e, para ele, in\u00f3spito. O Rolex vai embora na primeira negocia\u00e7\u00e3o para conseguir alguns trocos na moeda local. Seus cart\u00f5es de cr\u00e9dito foram desativados \u2013 \u00e9 hora de se defrontar com uma nova realidade.<\/p>\n<p>(*) Se o mocinho vai se dar bem, assista ao filme ou leia na Nota do Autor amah\u00e3., quando apresento as minhas conclus\u00f5es sobre&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Amiga,<\/p>\n<p>Citei essas produ\u00e7\u00f5es para melhor ilustrar nossa conversa. H\u00e1 a\u00ed tr\u00eas li\u00e7\u00f5es de vida que, muitas vezes, preferimos n\u00e3o assimilar.<\/p>\n<p>Em<em> O Marido da Cabeleireira<\/em>, a pr\u00f3pria resolve por um fim \u00e0quele envolvimento\u00a0 por um motivo simples. Aquele foi um instante \u00fanico e pleno. M\u00e1gico entre col\u00f4nias e lavandas. N\u00e3o se repetiria. N\u00e3o mais com aquela intensidade e luz.<\/p>\n<p>\u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil escrever \u2013 e entender. N\u00e3o h\u00e1 encantamento amoroso que resista aos altos e baixos do dia-a-dia. \u00c9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>O olhar triste da mo\u00e7a vinha da\u00ed. N\u00e3o gostaria de ver, outra vez e gradativamente, o amor se desvanecer.<\/p>\n<p>Nada, nada. \u00c9 a mesma tem\u00e1tica de <em>O Perfume de Lucyenne<\/em>. O imprevis\u00edvel pr\u00edncipe transformou-se num tedioso sap\u00e3o. Tem cabimento? Ela a enfrentar o pr\u00f3prio sonho em Hollywood e o lindo, entregador de pizza. Cad\u00ea o tom de sedu\u00e7\u00e3o que sempre procuramos no ser amado? E depois se ela pr\u00f3pria fosse uma canastrona. O que fariam? Levariam uma vida entre a farinha, a mussarela e o forno \u00e0 lenha.<\/p>\n<p>N\u00e3o pensou duas vezes. Deu \u00e1rea&#8230;<\/p>\n<p><em>Puerto Escondido<\/em>, por sua vez, mostra que sempre e sempre, sejam quais forem as circunst\u00e2ncias, o homem tem essa capacidade de reinventar a vida \u2013 e isso me parece muito bom. N\u00e3o existe uma \u00fanica forma de ser feliz.<\/p>\n<p>Felizmente , eu diria.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Isto posto, tentarei responder a pergunta que, l\u00e1 no come\u00e7o, encerra a parte um.<\/p>\n<p>Assim:<\/p>\n<p>O encontro virtual di\u00e1rio, parece-me, nada mais \u00e9 do que um <em>Puerto Escondido<\/em> e bem mais seguro. Os dois tiveram \u2013 ou foram for\u00e7ados a ter &#8212; uma praticidade de fazer inveja a <em>Lucyenne<\/em>. E, por fim, n\u00e3o correm quaisquer riscos de quebrarem o encanto e a cara. T\u00eam sempre \u00e0 m\u00e3o um \u2018amor eterno\u2019 que foi sem nunca ter sido. Basta dar um clique e \u2018viajar\u2019 telinha adentro.<\/p>\n<p>Como dizia um nobre deputado, est\u00e1 bom para os dois. Ent\u00e3o, divirtam-se!<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>De resto, cara amiga, s\u00f3 quero dar mais um pitaco. N\u00f3s, pobres e limitados human\u00f3ides, vivemos uma grande \u2013 vast\u00edssima \u2013 contradi\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, queremos viver um grande amor, com riscos e sobressaltos inerentes ao tamanho da encrenca. Mas, n\u00e3o abrimos a guarda para algo que pode nos tirar da ador\u00e1vel rotina de uma vida comum. Dessas bem pacatas mesmo, como nos cobram os amigos e as conven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Enfim, \u00e9 isso&#8230;<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>* Nota do Autor<\/p>\n<p>Aviso importante.<\/p>\n<p>Pare por aqui se n\u00e3o quiser saber o fim dos tr\u00eas filmes.<\/p>\n<p>01. O <em>Marido da Cabeleireira<\/em> \u2013 A mulher come\u00e7a a cortar o cabelo do marido por falta de clientes que ousassem enfrentar a manh\u00e3 de chuva torrencial. Os perfumes e as car\u00edcias logo se transformam num ato de amor intenso, envolto a lavandas e perfumes. Um ritual m\u00e1gico. De repente, a mulher sai em plena chuva e se atira na correnteza para perplexidade dos espectadores. Ela preferiu dar fim a vida a enfrentar novamente o fim gradativo de um grande amor.<\/p>\n<p>02. O <em>Perfume de Lucyenne \u2013 <\/em>A bela Lucyenne achou por bem aceitar o ass\u00e9dio de um milion\u00e1rio gosmento que a perseguiu durante todo o filme. Fugiu com ele naquela mesma manh\u00e3 e deixou o bonit\u00e3o sem nada entender. Acabou o encanto \u2013 e o dinheiro.<\/p>\n<p>03. <em>Puerto Escondido<\/em> \u2013 Aos poucos, o italiano vai se adaptando \u00e0 vida naquela praia lind\u00edssima. Passa a valorizar as coisas simples da vida \u2013 a liberdade de ser o que se \u00e9, as amizades sem interesse, o por do sol. Quando, por fim, se desfaz o engano, ele prefere continuar por l\u00e1.<\/p>\n<p>Eu avisei. S\u00f3 chegou at\u00e9 aqui quem quis. De qualquer forma, vale a pena assistir aos tr\u00eas filmes e viver um grande e definitivo amor. No m\u00ednimo, no m\u00ednimo, queremos algu\u00e9m que escute e acredite em nossas prosas. E que esteja ao nosso lado, mesmo a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e9 assim?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amiga:<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se sei escrever um texto sobre o tema que voc\u00ea me prop\u00f4s. 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