{"id":11338,"date":"1981-09-11T00:00:00","date_gmt":"1981-09-11T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:15:32","modified_gmt":"2017-09-13T19:15:32","slug":"uma-homenagem-a-mulher-por-erasmo-carlos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/uma-homenagem-a-mulher-por-erasmo-carlos\/","title":{"rendered":"Uma homenagem \u00e0 mulher, por Erasmo Carlos"},"content":{"rendered":"<p>&#8212; Teve uns caras (cr\u00edticos de m\u00fasica) que me deram tr\u00eas dias de vida. Ano passado, completei 20 anos de carreira, com um trabalho que me deu disco de ouro. Ent\u00e3o, \u00e9 porque sou bom. Bom mesmo!<\/p>\n<p>Ao lan\u00e7ar o vig\u00e9simo primeiro elep\u00ea individual, \u201cMulher\u201d, pela Polygran, ErasmoCarlos revela-se bem diferente do irrequieto Tremend\u00e3o, considerado o mentor da Jovem Guarda. Em meio \u00e0 coletiva que deu \u00e0 imprensa no Hotel Brasiltown, a frase em ep\u00edgrafe soou natural, espont\u00e2nea. Ali\u00e1s, esse carioca de 40 anos, cabelos ralos, levemente grisalhos e encaracolados, de h\u00e1 muito se despiu da pose de artista.<\/p>\n<p>&#8212; Sou um cara tranq\u00fcilo. Pai de tr\u00eas filhos, casado, que gosta de fazer coisas comuns como ir ao futebol (sou Vasco no Rio e Palmeiras em S\u00e3o Paulo), ao cinema, \u00e0 praia.<\/p>\n<p>Abandonou inclusive a fama de turr\u00e3o e briguento que lhe perseguiu nos idos de 60.<\/p>\n<p>&#8212; H\u00e1 dez anos n\u00e3o brigo e n\u00e3o dou soco em ningu\u00e9m. Sou o que se pode chamar de pacifista.<\/p>\n<p>Erasmo confessa que, na verdade, nunca conseguiu conviver legal com essa hist\u00f3ria de mito. \u00c9 sufocante, explicou. Ser popular \u00e9 agrad\u00e1vel, mas com ressalvas.<\/p>\n<p>&#8212; Eu preciso viver como todas as pessoas. Sou simples. Considero isso muito importante. Adoro minha mulher e os meus filhos \u2013 o de 18 anos, por exemplo, me coloca a par dos problemas da nova gera\u00e7\u00e3o. De quando em quando, pinta um aut\u00f3grafo e coisa e tal. Mas, numa boa, sem correria, agarramento, roupas rasgadas etc.<\/p>\n<p>O DISCO<\/p>\n<p>Um disco em homenagem \u00e0 mulher \u00e9 como se pode definir o mais recente trabalho de Erasmo. Ele, quem sempre fez m\u00fasica falando da mulher, diz que nunca havia dedicado um disco inteiramente a elas. \u00c0s barras que elas ag\u00fcentam no dia-a-dia; em casa, na rua, cuidando dos filhos, do marido.<\/p>\n<p>Erasmo, com a palavra:<\/p>\n<p>&#8212; A gente luta, luta, e acaba sendo vencido. De repente, descubro que n\u00e3o posso combater certas coisas da minha cria\u00e7\u00e3o, provocadas pela educa\u00e7\u00e3o machista que tive como todo homem brasileiro. Acho que tenho me libertado de v\u00e1rias delas. Diria at\u00e9 que estou bem melhor do que dez anos atr\u00e1s, e continuo tentando.<\/p>\n<p>&#8212; Foi nesse processo que eu me toquei: foi uma mulher que me fez vir ao mundo e sempre girei em torno delas. N\u00e3o elas em torno de mim. Encontrei a mulher amada e vejo exemplo de mulheres maravilhosas como vejo outros homens tamb\u00e9m girando em torno das mulheres. A\u00ed, tomei consci\u00eancia e me bateu uma coisa na cabe\u00e7a: ser\u00e1 que Deus \u00e9 mulher? Desses devaneios, dessas interroga\u00e7\u00f5es, dessas teorias, nasceu tudo.<\/p>\n<p>&#8212; Aconteceu de um dia ter uma briga com minha mulher, a Narinha \u2013 e ela, num desabafo, come\u00e7ou a escrever muitas coisas. Discutia a fragilidade da mulher (mentira que est\u00e1 contida nessa id\u00e9ia), a solicita\u00e7\u00e3o di\u00e1ria que recebe de v\u00e1rios lados (do marido, dos filhos da casa, dela mesma como pessoa), a cobran\u00e7a velada que cada mulher sofre de outras mulheres \u2013 enfim, ela desabafou tudo no papel. Estava confusa diante deste mundo machista que tanto ainda oprime a mulher. No dia seguinte, eu li e achei maravilhoso porque todas as inquieta\u00e7\u00f5es dela caminhavam com as minhas interroga\u00e7\u00f5es, com os questionamentos que me fazia naquele momento. Da\u00ed, surgiu a primeira faixa, \u201cMulher\u201d<\/p>\n<p>SEM POL\u00caMICAS<\/p>\n<p>Sobre coloca\u00e7\u00e3o semelhante de outros artistas sobre o assunto, como Gil, Caetano e o pr\u00f3prio John Lennon, Erasmo acha que \u00e9 o momento que todos vivemos.<\/p>\n<p>&#8212; Cada um com a sua viv\u00eancia, estamos fazendo uma declara\u00e7\u00e3o de f\u00e9 do novo homem. Eu, por mim, sempre fui um observador da minha vida. De uns dez anos para c\u00e1, comecei a valorizar a contempla\u00e7\u00e3o e acho que come\u00e7o a colher os resultados. Da\u00ed v\u00eam as conclus\u00f5es que acabam por inundar as minhas m\u00fasicas.<\/p>\n<p>Erasmo avisa. Quer dist\u00e2ncia das pol\u00eamicas.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o me chamo Erasmo Gabeira. Nem estou ditando normas de vida para ningu\u00e9m. N\u00e3o quero que ningu\u00e9m me siga por seguir. Estou mostrando como sou como ser humano. Transo muito o amor. Amor de amigo, de filho, de pai, de marido, Amor \u00e9 entrega. Seo que eu canto servir para melhorar a vida de algu\u00e9m, \u00f3timo.<\/p>\n<p>A CAPA e&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00e9m das can\u00e7\u00f5es, outros dois pontos se real\u00e7am no disco \u201cMulher\u201d: a surpreendente capa (Narinha aparece amamentando Erasmo) e a produ\u00e7\u00e3o, oportunamente econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Fala Erasmo:<\/p>\n<p>&#8212; Eu e Narinha ficamos muito perdidos, no come\u00e7o, sem saber como fazer a capa. Surgiram milh\u00f5es de id\u00e9ias, mas nenhuma se encaixava direitinho no clima do disco. De repente, Narinha teve esta luz. Deu a sugest\u00e3o que foi prontamente aceita por mim. Imediatamente, visualizei o que ela sugeria e percebi que era perfeita para o meu trabalho. Dif\u00edcil foi convence-la a fazer a foto. \u00c0 primeira vista, as pessoas encaram pelo lado pornogr\u00e1fico, pelo lado er\u00f3tico. At\u00e9 de um jeito grosseiro. Mas, na minha concep\u00e7\u00e3o, tinha que ser uma coisa Bergman, sabe, uma coisa doce. Em resumo, o que pretendemos foi passar o nosso amor.<\/p>\n<p>&#8212; Quis cooperar com a gravadora. A crise do disco anda braba, n\u00e3o \u00e9? Ent\u00e3o, como um artista estabilizado quis dar o exemplo \u2013 poucos m\u00fasicos, poucas horas de est\u00fadio, capa em branco e preto e tudo bem. No final, o resultado foi maravilhoso. Ali\u00e1s, poucas pessoas causam menos confus\u00e3o e o astral fica bem melhor.<\/p>\n<p>&#8230; A PRODU\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>Quem assina a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 Jairo Pires, com arranjos e reg\u00eancia do maestro Jos\u00e9 Roberto Betrami. Participam os m\u00fasicos: Alex Malheiros e Paulo C\u00e9sar (baixo), Mam\u00e3o e Roberto Silva (bateria), Djalma Correa e Jos\u00e9 Roberto (percuss\u00e3o), Rick Ferreira (viol\u00e3o de a\u00e7o, guitarra, steel e banjo), Alo\u00edsio Petrus (violino), e Betrami (\u00f3rg\u00e3o e piano). As m\u00fasicas: \u201cMulher\u201d, \u201cMinha Superstar\u201d, \u201cPega na Mentira\u201d, \u201cA Lenda do Ci\u00fame\u201d, \u201cFilho\u201d, \u201cA Carta do \u00cdndio\u201d, \u201cGatinha Manhosa\u201d, \u201cDor de Cabe\u00e7a\u201d, \u201cFeminino Cora\u00e7\u00e3o de Deus\u201d e \u201cPrimog\u00eanito\u201d.<\/p>\n<p>&#8212; Meus discos, minhas m\u00fasicas refletem bem o que eu sou. Quero continuar como um ser mutante, um ser que se atualiza, que se questiona, que busca o novo.Ali\u00e1s, meu relacionamento com Narinha procura salientar bem esse aspecto: a individualidade. A gente quer vencer a vida. Procuramos viver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8212; Teve uns caras (cr\u00edticos de m\u00fasica) que me deram tr\u00eas dias de vida. Ano passado, completei 20 anos de carreira, com um trabalho que me deu disco de ouro. 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