{"id":23172,"date":"2020-06-22T06:15:57","date_gmt":"2020-06-22T06:15:57","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=23172"},"modified":"2020-06-22T12:49:20","modified_gmt":"2020-06-22T12:49:20","slug":"a-casa-que-e-um-navio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/a-casa-que-e-um-navio\/","title":{"rendered":"A casa que \u00e9 um navio&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Ando pela casa \u00e0s escuras, de uma janela para outra, madrugada adentro.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se s\u00e3o os dias, os acontecimentos, essa calamidade toda que a\u00ed est\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Ando com o sono curto, por isso, talvez.<\/p>\n<p>Sono entrecortado por sonhos dos quais esque\u00e7o no instante em que acordo, mas que n\u00e3o causam boas sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 sempre uma quest\u00e3o em jogo, antiga, indefinida, que retorna de abissais cavernas da mem\u00f3ria ou coisa que o valha &#8211; e me escapa a solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, desperto. Levanto a contragosto. E perambulo pela sala a olhar a noite, as estrelas (se estrelas houver) e as luzes esmaecidas de uma cidade &#8211; enfim, e por fim &#8211; vazia.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Muitas vezes, rabisco na mente o texto que escreverei assim que se fizer a manh\u00e3.<\/p>\n<p>Em outras, tento lidar com os fantasmas e as afli\u00e7\u00f5es que, a essas horas, soam bem mais pesadas, angustiantes.<\/p>\n<p>Numa dessas jornadas noturnas, tentei disfar\u00e7ar.<\/p>\n<p>Me pus a contar as janelas acesas dos pr\u00e9dios ao derredor. Mesmo os mais distantes.<\/p>\n<p>N\u00e3o cheguei a fechar o balan\u00e7o. Parei na casa das tr\u00eas dezenas.<\/p>\n<p>Nunca fui bom de contas.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Imaginei, ent\u00e3o, quem seriam os insones, como eu&#8230;<\/p>\n<p>O que os aflige?<\/p>\n<p>O que vivem neste preciso instante em que todos (ou quase todos) dormem o sono dos justos e dos n\u00e3o t\u00e3o justos assim?<\/p>\n<p>Perguntas sem respostas.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias e tamb\u00e9m da minha fragilidade, me fa\u00e7o solid\u00e1rio a cada uma das pessoas que, no rec\u00f4ndito do lar, fica a esgrimir tristezas e anseios que nos s\u00e3o, desde sempre, inerentes \u00e0 alma e ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Somos humanos, finitos &#8211; e, no mais das vezes, abra\u00e7amos ternamente a ilus\u00e3o de ser feliz.<\/p>\n<p>Por isso, ligo a luz do abajur pr\u00f3ximo \u00e0 janela.<\/p>\n<p>Dou sinal de vida &#8211; e me integro \u00e0 banda dos not\u00edvagos e \u00e0 m\u00fasica do sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>A eles &#8211; e a mim -, sa\u00fado a manh\u00e3 que n\u00e3o tarda e, mesmo que vagamente, nos traz\u00a0 a esperan\u00e7a (quase certeza) de dias mais promissores.<\/p>\n<p>Teimosos que somos, insistimos na f\u00e9 e na coragem.<\/p>\n<p>A eles &#8211; e, se me permitem, a mim &#8211; lembro agora, como b\u00fassola, o trecho de uma cr\u00f4nica antiga do grande Rubem Braga (1913\/1990) que se intitula <em>A Casa Viaja no Tempo.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Talvez nos seja \u00fatil para entender outras tantas madrugadas iguais que estamos a enfrentar.<\/p>\n<p>\u00c0 dist\u00e3ncia, mas unidos:<\/p>\n<p>&#8220;A casa n\u00e3o \u00e9 mais a mesma, a casa n\u00e3o \u00e9 mais a casa, \u00e9 um grande navio que vai singrando o tempo, que vai embarcando e desembarcando gente no porto de cada domingo&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Boa semana, amigos. Sa\u00fade. E, se poss\u00edvel, fiquem em casa!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SX7JMrCWqN8\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Ando pela casa \u00e0s escuras, de uma janela para outra, madrugada adentro.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se s\u00e3o os dias, os acontecimentos,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":23178,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1330,1334,1332,1331,885,1333],"class_list":["post-23172","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-a-casa-viaja-no-tempo","tag-emilio-santiago","tag-insonia","tag-madrugada","tag-rubem-braga","tag-saigon"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23172","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23172"}],"version-history":[{"count":8,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23172\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23183,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23172\/revisions\/23183"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23178"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}