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Mino Carta, ainda e sempre – 2

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Foto: Arquivo Pessoal

Meus caros e preclaros,

tenho em algum canto, soterrada por outro tantos volumes nos cafundós de um dos armários aqui de casa, a encadernação de quase todas as edições do Jornal da República.

Não havia assinatura. Eu os comprava nas bancas. Perdi meia dúzia de números, se tanto. Orgulhava-me em ser leitor fiel de outra das tantas – e fundamentais – criações do jornalista Mino Carta (1936/2025) que circulou na Grande São Paulo entre os anos de 1979 e 1980. Para comandar esta empreitada diária, Mino Carta se fez acompanhar por outro luminar do jornalismo pátrio, o mestre Cláudio Abramo.

A proposta, um tanto ousada, era fazer um jornalismo sério, independente e de amplo aspecto humanista, a dupla convidou para participar da aventura uma plêiade de notáveis profissionais de Imprensa.

Lembro, por exemplo e com saudades, as matérias de página inteira do repórter Ricardo Kotscho e, sobretudo e principalmente, os notáveis editoriais assinados ora por Abramo ora por Mino.

Eles se revezavam no texto e o publicavam na primeira página do jornal.

Ok. Sou suspeito para falar, mas vamos combinar: foi um belo experimento que durou seis meses; pouco mais, talvez.

A argumentação da época era de que não houve apoio das agências de publicidade para cacifar “um jornal de perfíl mais à esquerda”, mesmo que, então, já respirássemos as primeiras e bem-vindas brisas da redemocratização do país.

Creio que outras questões também concorreram para lhe abreviaram a trajetória e a existência. Mas, sem o respaldo dos anunciantes, ficou impossível.

Então, amigos, deixa que eu lhes diga (mas, aviso, não é promessa):

Qualquer dia tomo coragem e enfrento a poeira, os ácaros e as memórias dos idos e havidos tempos para prospectar as páginas amareladas de tais edições.

Estejam certos, teremos um farto e rico material para lhes mostrar, aqui, em nosso humilde Blog.

Uma dessas histórias, registro, me é inesquecível e, nesta altura dos nossos desalinhos sociais, parece-me ter o dom da profecia.

É assinada por Mino Carta, óbvio.

Trata-se de uma passagem ocorrida aos olhos do próprio Mino e que, posteriormente, ele transformou em tema para o breve editorial do dia seguinte.

Seguinte.

Tudo começa com a acalorada discussão, barraco geral mesmo, entre duas portentosas damas da nossa mais seleta sociedade do bairro aristocrático de Higienópolis. Elas se esfalfaram numa troca de impropérios na vã tentativa de, uma delas, ser a primeira a ser atendida pelo pasmo e atarefado frentista junto a uma prosaica bomba de gasolina.

Ambas queriam completar o tanque dos referidos possantes.

Por nada no planeta, abririam mão da primazia em relação a quem quer que fosse.

Como assim?

Explico:

À época, final dos anos 70, os aumentos dos combustíveis eram anunciados, pelo cavernoso Governo Militar e seus asseclas econômicos, minutos antes de os postos encerrarem suas atividades. Às 20 horas.

(Plim. Plim.)

O Jornal Nacional era o porta-voz da infausta informação – e, imaginem!, as ruas e imediações dos ´postos se transformavam, num átimo de segundo, em “um-deus-nos-acuda”.

Formavam-se longas filas, pois.

Como bons brasileiros que somos, ansiávamos o regalo, o privilégio, a vantagem.

É bíblico, diriam:

“Mateus, primeiro os meus”.

Tudo para economizar alguns parcos trocados.

Mesmo quem como as distintas madames não precisassem.

As escaramuças, portanto, eram inevitáveis.

Como já lhes disse, Mino é italiano de nascimento, da bela comuna de Genova. Veio para o Brasil ainda garoto ao fim da Segunda Grande Guerra. A cena – deplorável em todos os aspectos – fez com que ele refletisse que, até então, o Brasil não havia enfrentado um momento, digamos, crítico, contundente em âmbito nacional.

Desconfio que usou o termo “uma grande tragédia”. Que a todos atingisse indistintamente.

Talvez por isso fosse comum o comportamento tacanho e egoísta daquelas senhoras que, justiça se lhes faça, se repetia indistintamente em outros postos de gasolina em qualquer canto do país. Indiferente de credo, raça e, digamos, classe social.

Disse mais, o jornalista – e concluiu: se tal comportamento se perpetrasse principalmente no que chamou de elite privilegiada, não haveria futuro para a democracia que, então e avidamente, ainda almejávamos conquistar. Menos ainda em darmos forma a um Brasil de todos os brasileiros, desafio que ainda teimamos em construir desde então.

A pergunta final, amáveis leitores, sou eu quem a faço:

Conseguiremos?

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Por Ricardo Kotscho

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