Foto: Rafael Ribeiro/CBF
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Meados dos anos 60.
1965. Talvez 1966…
Adoniran Barbosa andava pela TV Record que vivia o auge da popularidade, com uma linha de shows e musicais, comandados pelos grandes nomes da nossa música popular de então: Elis Regina, Agnaldo Rayol, Jair Rodrigues, Wilson Simonal, Roberto, Erasmo e Vanderléa, além dos gloriosos e efervescentes festivais da canção.
Um sucesso retumbante. Mas que não contemplava o humorista e compositor Adoniran que, explique-se, era contratado das emissoras de Rádio e TV da Record desde idos tempos.
O autor de tantos sucessos como “Saudosa Maloca”, “Samba do Arnesto”, “Iracema”, “Joga a Chave” vivia, como de resto todos os cantantes e afins de sua geração, esquecido, à sombra do modismo da época.
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Esses anos de quase anonimato incomodaram Adoniran. Diria mesmo que o entristeceram, mas não a ponto de lhe roubar a inspiração e o jeito ítalo-paulistano de entender as coisas da vida. Junto com o parceiro, fizeram um samba dolente e realista a partir de um gíria que o então jovem roqueiro Roberto Carlos consagrou na apresentação do programa Jovem Guarda – “É uma brasa, mora” – para designar algo ou alguém ‘quente’, ‘bom’ ou de grande sucesso.
Eles escreveram:
“Eu também um dia fui uma brasa
E acendi muita lenha no fogão
E hoje o que é que eu sou?
Quem sabe de mim e meu violão
Mas lembro que o rádio que hoje toca
Iê-iê-iê o dia inteiro tocava saudosa maloca
Eu gosto dos meninos desses tal
De iê-iê-iê, porque com eles
Canta a voz do povo
E eu, que já fui uma brasa
Se assoprarem, posso acender de novo”
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Lembrei a historieta, nesses dias, a partir da polêmica que o slogan “Vai, Brasa!” que a fornecedora do uniforme da seleção brasileira criou para o Mundial de 2026.
Coisas do marketing global.
Não conheço quem quer que seja que, em algum momento, se pôs a gritar “Vai Brasa!” como incentivo à seleção pentacampeã.
E olhem que tenho um certo tempo como torcedor e apaixonado por futebol.
Enfim…
Parece que o equívoco foi sanado.
É o que diz o cartola-mor da CBF.
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Mesmo assim, e por força das circunstâncias, ao assistir os melhores momentos da partida de ontem entre França (2) e Brasil (1), fiquei um tanto nostálgico e me pus a cantarolar baixinho o samba de Adoniran, especialmente os versos finais…
“E eu, que já fui uma brasa,
Se assoprarem, posso acender de novo”
Tomara!
Haja pulmões, gente!
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TRILHA SONORA
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