Foto: Jô Rabelo
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Ao ouvir minha conversa – que, juro, imaginei amena – numa roda de conhecidos, um rapazote me definiu em tom acusatório, digamos assim:
“O senhor é um intelectual. Então, o senhor é esquerdista”.
Errou, mas preferi ignorá-lo.
Não me considero intelectual. Jornalista é jornalista. Um produtor das notícias que se alicerçam na verdade factual e nas funções de crítica e fiscalização. Sempre em defesa dos valores democráticos e dos princípios cidadãos.
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A propósito, há coisas que me pergunto (para não dizer, afligem, assolam, perturbam, derrubam…) e não tenho uma resposta convincente.
Talvez eu possa dividir (compartilhar?) tais questionamentos com os amáveis cinco ou seis leitores.
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Quem ganha e quem perde com a polarização rastaquera entre Direita e Esquerda?
Essa balela deixou de existir como pauta das discussões políticas logo após o consolidar da redemocratização do país, meados dos anos 80.
Soava antigo, despropositado, erguer tais bandeiras fossem qual fosse a questão de ordem do dia.
“Mas, do que esse cara está falando?”
Era nitidamente perceptível que o Brasil e os brasileiros não cultivavam esse viés extremista de um lado e de outro. A proclamada “ameaça comunista” servia mais ao filmes americanos – e filmes bem antiguinhos, registre-se.
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As históricas greves dos metalúrgicos do ABC, em fins dos anos 70 e início dos 80, não tinham quaisquer propósitos de transformar o Brasil numa República Socialista ou algo do gênero. Os trabalhadores reivindicavam o básico e o essencial: melhores condições de trabalho, salários justos e o direito a uma vida digna para eles, para os seus e, por extensão, para todos os brasileiros.
Foi o começo do fim da ditadura, ok.
Mostrou-se bom para todos os segmentos sociais, não?
Enfim, a democracia se fez – e se perpetrou com a Constituição de 1988.
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Mesmo aos trancos e barrancos, com idas e vindas, e a tristemente indestrutível desigualdade social, o país se revitalizou em termos de aproximar-se da almejada contemporaneidade como nação.
O debate público trazia questões perfeitamente cabíveis ao momento. Oscilavam entre conservadores e progressistas, o neoliberalismo e a social-democracia. Tínhamos, pois o predomínio do tucanato e do lulismo que, a bem da verdade, se indispunham em busca da preferência do eleitorado.
Tanto o PSDB quanto o PT – partidos que protagonizaram a cena política de 1994 até 2018 – traçavam planos de permanecer o mais tempo possível no Palácio do Planalto, mas, ressalte-se, sempre dentro das tênues regras do jogo democrático.
Receberia sonora vaia – e provavelmente seria alijado do debate – quem argumentasse com jargões tipo ‘luta de classes’, ‘ameaça golpista’, ‘intervenção dos militares’, ‘retrocesso nos direitos dos cidadãos’, entre outros lugares comuns.
“Direita e esquerda, como assim?” – questionava-se algo perplexo.
“Isso é coisa da Revolução Francesa. Século 18, cara? Em que planeta você vive. Estamos nos beirais do século 21. O mundo mudou.”
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Meus caros, raros e preclaros,
… juro que ouvi tais ponderações numa tarde qualquer de um dos mais antigos dos anos. Empolguei-me mais com a expressão “beirais do século 21” do que com o conteúdo daquela conversa entre bons camaradas.
Depois disso – talvez fosse mesmo oportuno andar por Marte ou pelos Anéis de Saturno –, pois cá estamos no terceiro decanato do tal século 21, sou obrigado a reconhecer que verdadeiramente “o mundo mudou” mas, sinceramente, não sei se…
Ops… Melhor parar por aqui. Estou parecendo o rapazote cheio das razões e conclusões.
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TRILHA SONORA
“Ando com minha cabeça já pelas tabelas
Claro que ninguém se toca da minha aflição “
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