{"id":10949,"date":"2008-04-22T00:00:00","date_gmt":"2008-04-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:50:13","modified_gmt":"2017-09-15T19:50:13","slug":"o-menino-da-porteira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/o-menino-da-porteira\/","title":{"rendered":"O Menino da Porteira"},"content":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito das not\u00edcias que ouvi sobre a refilmagem do cl\u00e1ssico sertanejo Menino da Porteira, quero recontar uma hist\u00f3ria antiga que registrei aqui n\u00e3o lembro bem quando. \u00c9 que, l\u00e1 no mais antigo dos anos, entrevistei o garoto que fez o personagem t\u00edtulo daquela produ\u00e7\u00e3o. Foi  um baita sucesso que solidificou a carreira de S\u00e9rgio Reis no universo da m\u00fasica caipira. <\/p>\n<p>A antiga moda de viola regravada por Serj\u00e3o forneceu o entrecho para o filme. O garotinho M\u00e1rcio Costa fazia \u201co menino da porteira\u201d. Tinha nove, dez anos, se tanto e eu o entrevistei. A m\u00e3e o levou ao jornal e falava por ele que, por sua vez, ficava a se olhar no reflexo do vidro da janela da reda\u00e7\u00e3o. Alheio ao que se passava ao redor, ajeitava o cabelo, fazia caretas, sorria, gesticulava num mundo que era s\u00f3 dele. E a m\u00e3e a dizer que o filho nascera para a arte e ele a interpretar ele mesmo em frente a janela.<\/p>\n<p>Essa cena ficou na minha cabe\u00e7a. <\/p>\n<p>O tempo, senhor de todos os ritmos, passou. O menino, depois do filme, fez algumas novelas, outras tantas pe\u00e7as teatrais. Por\u00e9m, nunca mais alcan\u00e7ou a mesma proje\u00e7\u00e3o. Virou adulto e os pap\u00e9is rarearam. Reapareceu na reda\u00e7\u00e3o v\u00e1rias vezes. Vinha divulgar o curso de teatro que iria ministrar na escola tal ou falar do &#8216;personagem incr\u00edvel&#8217; que iria representar numa pe\u00e7a infantil ou mesmo para anunciar que seria escalado para a novela XYZ &#8212; papel que invariavelmente perdia para os novos meninos da porteira, de todas as idades e proced\u00eancias. <\/p>\n<p>Num dia de julho de 2004, o tal menino, aos 36 anos, n\u00e3o sei se diante da janela ou do espelho, encenou o derradeiro personagem. Morreu sozinho num apartamento no bairro do Ipiranga, onde sempre morou. Era o fim ingl\u00f3rio ao que se entendia ser &#8216;a promissora carreira&#8217;. Ningu\u00e9m soube explicar o ato final. Saiu uma brev\u00edssima nota sobre o fato num jornal da regi\u00e3o \u2013 e s\u00f3.<\/p>\n<p>Lembrei essa hist\u00f3ria hoje. A not\u00edcia da produ\u00e7\u00e3o estava no home do Uol. Tenho certeza que poucos v\u00e3o se lembrar do M\u00e1rcio Costa. Quis fazer uma modesta homenagem. <\/p>\n<p>Acho oportuno tamb\u00e9m propor a reflex\u00e3o sobre os dois lados da moeda. A fama e o anonimato. O sim e o n\u00e3o. <\/p>\n<p>Vivemos tempos estranhos. <\/p>\n<p>\u00c9 a vida que nos enreda e nos exige forte e, ao mesmo tempo, precisamos ter a desfa\u00e7atez de n\u00e3o nos levarmos a s\u00e9rio. A n\u00f3s, aos nossos quereres, \u00e0 nossa rotina. Algo assim como a leveza de um filme do Carlitos &#8211; que, por sinal, era o apelido do meu av\u00f4.<\/p>\n<p>Repare como o vagabundo toca a vida, mesmo na maior das afli\u00e7\u00f5es. Para ele, os chefes, as autoridades, os poderosos s\u00e3o invariavelmente med\u00edocres, bizarros &#8211; qualquer semelhan\u00e7a como nosso dia-a-dia \u00e9 mera coincid\u00eancia. Os amores tardam, se esgueiram daqui e dali. Mas chegam e, o que \u00e9 melhor, sempre chegam no momento certo. <\/p>\n<p>E ele n\u00e3o precisa de nada mais.Tem o aux\u00edlio luxuoso n\u00e3o de um pandeiro, pois n\u00e3o nasceu Luiz Melodia, mas de uma bengalinha e um chap\u00e9u &#8216;coco&#8217; ou mesmo um brev\u00edssimo sorriso,  um olhar que seja. Assim d\u00e1 certo ritmo \u00e0 caminhada porque a estrada \u00e9 longa e sinuosa. Perde-se nos confins do faz-de-conta e \u00e9 infinita enquanto se chamar esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito das not\u00edcias que ouvi sobre a refilmagem do cl\u00e1ssico sertanejo Menino da Porteira, quero recontar uma hist\u00f3ria antiga que registrei aqui n\u00e3o lembro bem quando. \u00c9 que, l\u00e1 no mais antigo dos anos,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10949","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10949","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10949"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10949\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16974,"href":"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10949\/revisions\/16974"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10949"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10949"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10949"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}