{"id":23464,"date":"1991-08-06T18:58:14","date_gmt":"1991-08-06T18:58:14","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=23464"},"modified":"2020-07-25T19:11:03","modified_gmt":"2020-07-25T19:11:03","slug":"sergio-ricardo-mil-e-uma-artes-de-um-multiartista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/sergio-ricardo-mil-e-uma-artes-de-um-multiartista\/","title":{"rendered":"S\u00e9rgio Ricardo &#8211; Mil e uma artes de um multiartista"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por Rodolfo C. Martino (agosto 1991)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ele \u00e9 contempor\u00e2neo de Johnny Alf, Tom Jobim e Jo\u00e3o Donato. Musicalmente, come\u00e7ou como eles: pianista de boate. Mas, embora tenha participado do c\u00e9lebre Show no Carnigie Hall no in\u00edcio dos anos 60, garante que nunca foi bossa-novista.<\/p>\n<p>\u201cBossa nova \u00e9 coisa de Jo\u00e3o Gilberto, e s\u00f3. O resto pegou carona\u201d &#8211; defende-se ainda hoje.<\/p>\n<p>Seu maior sucesso foi o samba \u201cZel\u00e3o\u201d. Mas, sua popularidade atingiu \u00edndices alt\u00edssimo num dos incandescentes festivais da Record. Inconformado com a incessante vaia que sua can\u00e7\u00e3o (uma delicada homenagem a Garrincha) recebia, n\u00e3o teve d\u00favidas: quebrou o viol\u00e3o e o jogou sobre a plateia. No dia seguinte, era manchete em todos os jornais do Pa\u00eds. Um deles, em S\u00e3o Paulo, como de h\u00e1bito, exagerou na manchete:<\/p>\n<p><strong>Violada no Teatro<\/strong><\/p>\n<p>A bem da verdade, o paulista de Mar\u00edlia, Jo\u00e3o Luft, virou S\u00e9rgio Ricardo aos 17 anos. Fazia r\u00e1pidas apari\u00e7\u00f5es nos teleteatros da extinta TV Tupi quando um dos diretores, Te\u00f3filo de Barros, determinou a mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 jeito de voc\u00ea emplacar como gal\u00e3 com esse nome.\u201d<\/p>\n<p>Para n\u00e3o perder o emprego, aceitou ser Jo\u00e3o Ricardo. Mudou de nome. Mas n\u00e3o se contentou em ser apenas ator.<\/p>\n<p>Hoje aos 59 anos, S\u00e9rgio Ricardo \u00e9 um dos nomes mais combativos de nossa cultura popular. Cantor, compositor, cineasta, m\u00fasico, dramaturgo, pintor e muito breve tamb\u00e9m escritor, continua em plena atividade apesar do sil\u00eancio da m\u00eddia sobre seu trabalho.<\/p>\n<p>Semana que vem, faz duas apresenta\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Paulo. Dentro do Projeto Rondon, vai estar quarta e quinta-feira, a partir das 23 horas, na Boca da Noite. Aproveita sua estada por aqui para ultimar detalhes sobre a Semana S\u00e9rgio Ricardo que acontece em setembro no Museu da Imagem e do Som, onde al\u00e9m da m\u00fasica vai mostrar suas incurs\u00f5es pelo teatro, cinema e pintura.<\/p>\n<p>Ainda para esse ano, ele promete o lan\u00e7amento de seu primeiro livro, sugestivamente intitulado \u201cQuem Quebrou Meu Viol\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Na tarde de ter\u00e7a-feira, S\u00e9rgio Ricardo falou com exclusividade para o<em> DCI\/Shopping News<\/em>.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Depois de uma longa aus\u00eancia, voc\u00ea volta aos palcos da cidade. H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o canta por aqui e o que acha do retorno?<\/p>\n<p>&#8211; Olha, para ser exato, perdi a conta do tempo que n\u00e3o me apresento em S\u00e3o Paulo em show propriamente dito. H\u00e1 coisa de tr\u00eas anos estive no MASP junto com a Telma Tavares e a Orquestra Sinf\u00f4nica Juvenil. Foi a \u00fanica apresenta\u00e7\u00e3o na capital da \u201cHist\u00f3ria de Jo\u00e3o Joana\u201d, o cordel de Carlos Drummond de Andrade que transformei numa \u00f3pera popular\u2026 Acho importante apresentar-me novamente em S\u00e3o Paulo porque o artista, no contexto atual, tem mais \u00e9 que brigar pela abertura de novos espa\u00e7os para mostrar o seu trabalho. Al\u00e9m de participar do Projeto Rondon, vou preparar a Semana S\u00e9rgio Ricardo que vai acontecer no MIS, de 10 a 15 de setembro. Nesse evento, apresento-me como cantor\/compositor, cineasta e artista pl\u00e1stico. Ali\u00e1s, \u00e9 com esse trabalho que tenho viajado por todo o Brasil nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>&#8211; Significa dizer que, mesmo longe dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e do notici\u00e1rio, o S\u00e9rgio Ricardo continua a produzir ativamente?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que resta ao artista. A cultura brasileira est\u00e1 mesmo um caos. Mas, nem por isso voc\u00ea pode cruzar os bra\u00e7os. A mim, n\u00e3o falta repert\u00f3rio, n\u00e3o faltam ideias e vontade de trabalhar. Sou um artista que anda afastado do primeiro plano da m\u00eddia em fun\u00e7\u00e3o da aridez que anda a cultura nacional. \u00c9 bem verdade que atravessamos uma crise em todos os n\u00edveis. Mas, na \u00e1rea da cultura, ela \u00e9 vergonhosa. H\u00e1 ainda um rescaldo dos tempos da ditadura quando minha atua\u00e7\u00e3o como artista foi estigmatizada, duramente sacrificada. V\u00edcios como esses ainda persistem no r\u00e1dio, na TV\u2026 Mas, vivemos novos tempos e temos que persistir na luta, come\u00e7ar de novo.<\/p>\n<p>&#8211; Essa tem sido uma queixa constante da classe art\u00edstica. A quem voc\u00ea responsabilizaria por esse caos cultural?<\/p>\n<p>&#8211; A culpa \u00e9 do nosso maestro maior, o presidente Collor. Ele vem dando provas de que est\u00e1 equivocado com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica cultural. Parece propositalmente desconhecer inteiramente a quest\u00e3o. Com isso, vem aniquilando nossa cultura. E um povo sem cultura \u00e9 um povo sem identidade.<\/p>\n<p>&#8211; A situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 era prec\u00e1ria antes do presidente?<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9. Era horr\u00edvel e ficou bem pior. Com os militares identificava-se, com facilidade, a repress\u00e3o pela quest\u00e3o pol\u00edtica. Agora, h\u00e1 o cerceamento do aspecto cultural em si. Substitui-se tudo o que seja manifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, aut\u00eantica, verdadeiramente nossa, por um punhado de enlatados. At\u00e9 parece uma forma de vingan\u00e7a j\u00e1 que os artistas, em sua expressiva maioria, votaram e fizeram campanha para o Lula. Parece que o presidente est\u00e1 indo \u00e0 forra.<\/p>\n<p>&#8211; Em termos musicais, por exemplo, voc\u00ea faria um paralelo entre a MPB dos tempos dos festivais com a de hoje?<\/p>\n<p>&#8211; Toda e qualquer compara\u00e7\u00e3o fica prejudicada. Uma vez que h\u00e1, hoje em dia, uma supervaloriza\u00e7\u00e3o dos enlatados. Temos nossos portos abertos ao que vem de fora. Noventa e nove por cento da m\u00fasica que se ouve no r\u00e1dio e na TV \u00e9 estrangeira. Quando n\u00e3o, \u00e9 coisa feita aqui que imita a estrangeira. Como se fech\u00e1ssemos a torneira em que jorra o nosso petr\u00f3leo para deliberadamente importar combust\u00edvel do Exterior. O mais grave \u00e9 que os artistas n\u00e3o podem ficar inertes, no fundo da terra, esperando melhor sorte. Precisam sobreviver, mostrar seu trabalho, ver sua arte reconhecida. Por isso, est\u00e1 havendo essa evas\u00e3o de artistas para outros pa\u00edses. O mais importante disso tudo \u00e9 que, l\u00e1 fora, eles acabam se dando bem, fazendo sucesso, servindo de refer\u00eancia para trabalho de cantores e compositores estrangeiros. O que comprova a absurda invers\u00e3o de valores que vivemos.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje, voc\u00ea se considera mais m\u00fasico do que cineasta, mais cineasta do que artista pl\u00e1stico, mais artista pl\u00e1stico do que dramaturgo\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Na verdade, for\u00e7ado pelas circunst\u00e2ncias, fui obrigado a abrir meu campo de atua\u00e7\u00e3o para diversas formas de arte.\u00a0Me esfor\u00e7o para ser um bom m\u00fasico, um bom cineasta, um bom pintor e assim sucessivamente. J\u00e1 n\u00e3o me entenderia apenas como m\u00fasico. Ou s\u00f3 cineasta ou s\u00f3 pintor\u2026 Ainda agora preparo o lan\u00e7amento do meu livro (\u201cQuem Quebrou Meu Viol\u00e3o\u201d) em que procuro relatar esse processo de abandono cultural de 40 anos e a luta do artista para resgatar o espa\u00e7o vital da sua arte. Tamb\u00e9m estou na batalha para viabilizar a distribui\u00e7\u00e3o do meu \u00faltimo \u00e1lbum que \u00e9 justamente \u201cA Hist\u00f3ria de Jo\u00e3o Joana\u201d, gravado de forma independente. \u00c9 o meu jeito de continuar na luta e ir passando por cima de todos os sen\u00f5es que um produtor cultural independente \u00e9 obrigado a enfrentar no Brasil de hoje&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><strong><em>Por Rodolfo C. Martino (agosto 1991)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ele \u00e9 contempor\u00e2neo de Johnny Alf, Tom Jobim e Jo\u00e3o Donato. Musicalmente, come\u00e7ou como eles: pianista de boate. 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