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Notre-Dame, o incêndio e a memória

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Um incêndio atinge a catedral de Notre-Dame, em Paris, desde o final da tarde desta segunda-feira, causando a destruição de grande parte da icônica igreja católica.”

Assim que abro a página do El País no celular,  vejo a notícia.

Triste notícia que me leva para frente da TV.

Algumas emissoras transmitem as imagens do fogo a consumir o templo que existe há 850 anos e, nesses dias, passava por ampla reforma.

Direto de Paris, a jornalista comenta que já existe a versão de que o desastre se deu exatamente na área que estava em obras.

A moça também fala que a Notre-Dame levou dois séculos para ter concluída a construção. Que é o ponto turístico mais visitado da França – 30 mil por dia. Que os franceses e o mundo todo estão em estado de choque.

Lamentam a irreparável perda.

Diz mais.

Sinceramente, não ouço.

Se ouço, não assimilo.

Estou envolto em lembranças.

Recordo a primeira vez que lá estive. 1986. Também corria o mês de abril. Era um jovem, inconsequente e sonhador.

Andei pelas ruas de Paris com o coração acelerado pela ousadia de um suburbano, como eu, estar ali, do outro lado do Atlântico, a ronronar planos, amores e travessuras.

Sim, estava ali na Cidade Luz. De casaco de lã grossa e All Star azul, tirando uma chinfra às margens do Sena.

Pode?

De repente, meus olhos deparam com aquele imenso prédio que se ergue, onipresente, diante de mim.

Demorei alguns segundos para assimilar a imagem que só conhecia de postais.

Eis a Notre-Dame, disse para mim mesmo. Como se o único motivo daqueles breves dias na França fosse aquela visão magnífica.

Apertei o passo para chegar logo.

Assim que entrei intui a transcendência de ali estar.

Não sei explicar.

Me fiz comparsa da história.

Não sei se em função do horário, do dia, mas não havia tanta gente assim em seu interior.

Aquele era um momento meu.

A escuridão, aos poucos, foi se dissipando e pude caminhar no corredor entre as colunas até a nave central.

E então…

Um feixe de luzes coloridas me tirou do torpor, e depois outro e outro mais.

Nunca vi nada tão belo.

Aqueles vitrais deram a dimensão exata da minha insignificância.

Embevecido, procurei um banco para melhor admirá-los.

Mas deu-se o inverso.

Fiquei ali prostrado, de joelhos.

Tentei uma vã oração – andava distante dos ritos da Igreja.

Só o que soube fazer foi pregar meu olhar ao chão sem atrativos. Um chão igual a tantos outros, de tantas outras paróquias.

Nunca desvendei o mistério daquele momento. Sombrio e revelador.

Redemoinho de sensações, pensamentos; privilégio.

A retomada da fé que não se traduziu em palavras. Mas se fez plena e, diria, abençoada.

Voltei outras tantas vezes a Paris – quatro ou cinco.

Sempre inclui a visita a Notre-Dame nessas estadas.

Assisti à missa de primeiro de ano, descansei de longas caminhadas pelos arredores, revi o caleidoscópio de cores daqueles vitrais inigualáveis, caminhei entre as colunas, reaprendi a rezar e rezei. Me emocionei em vários níveis e por vários motivos.

Agradeci sempre.

Mas, o que vivenciei naquela tarde que se perdeu no tempo foi único, inexplicável. Inesquecível.

** Foto: Agência Brasil

 

 

 

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