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Nunca houve nada igual *

Foto: Cláudio Michelli

Nós a chamávamos carinhosamente de Lixão.

Era robusta, trepidante, invocada – e verde.

De sábado à quinta, ficava à nossa disposição para o que desse e viesse.

Às sextas, porém, entregava-se a outros domínios, diria, igualmente carinhosos. Afinal, todos ali a entendiam como um patrimônio. Acreditávamos inteiramente nela que, ao que me recordo, nunca nos deixou na mão.

Hoje pela manhã, tantos e tantos anos depois, seguia pela rua Vergueiro, no sentido centro de São Paulo. Na direção contrária, topei com uma possível ‘irmã’ da Poderosa. Não houve como não lembrar. Não houve como não sentir saudades. Não houve como não transformá-la no tema do post de hoje.

Como disse, era robusta, trepidante, invocada – e verde.

Dos instigantes faróis dianteiro ao consistente para-choque trazeiro, era verde.

Inteiramente verde – e nossa.

II.

Estou falando do Lixão, a velha Rural Willys que serviu de viatura de reportagem aos meus primeiros tempos de Gazeta do Ipiranga. Não era uma Rural qualquer. Tinha lá seus quilômetros rodados e uma boa caçamba. Por isso, todas as sextas-feiras, o pessoal da Distribuição a requisitava para ‘apoio’ na entrega dos então 43 mil exemplares da Gazetinha.

Seu Elizeu, o motorista, ia junto.

E nós da Redação ficávamos a mercê do busão ou de uma eventual e salvadora carona para qualquer emergência. Aliás, torcíamos para que o Zé Jofre, responsável pela entrega, adiantasse o serviço para que mais cedo pudéssemos ter o Lixão conosco.

Aí, sim, nos sentíamos com o time completo.

Prontos para qualquer emergência. Aptos a fazer reportagens que mudariam a história da humanidade.

III.

Aprendemos a ser exigentes com o Marcão, o principal jornalista da Casa. Qualquer reportagem que tratasse de um simples buraco de rua, ele nos fazia entender que estávamos diante de um grande desafio. Se fizéssemos o que deveria ser feito, logo os moradores daquele lugar seriam beneficiados – o que seria um serviço à sociedade. Ao ler a reportagem, as autoridades saberiam de qual lado estávamos. Moradores de outras ruas compreenderiam que éramos o porta-voz “dos seus legítimos anseios e reivindicações”.

Parece que ouço o Marcão:

— Essas são as melhores pautas, rapaz. Vá lá. Tire leite de pedra.

— Sim, senhor.

— Senhor está no céu, ô burguesinho alienado.

— Desculpe, Seo Marques. Quer dizer, Marcão.

IV.

Normalmente, saíamos eu, o repórter-fotográfico Cláudio Micheli (Clamic) e o seo Elizeu.

(O Waltão, por vezes, substituía o Clamic na captação de imagens.)

A Rural só tinha um banco, enorme. E nos ajeitávamos por ali confortavelmente. Nessa baiuca queridíssima de todos nós, enfrentamos enchentes históricas, acompanhamos carros de bombeiros atrás do incêndio, subimos e descemos ruas enlameadas, “viajamos” pelos 32 Jardins e Vilas do subdistrito do Ipiranga. Sempre a caça de notícias…

Havia um sonho. Havia uma causa.

Não seria exagero dizer que éramos felizes, mesmo ganhando pouco mais que alguns trocados.

V.

Numa tarde quente e instável como a de hoje, tocou o telefone da Redação. Alguém atendeu e soube que estava havendo um assalto na rua Mário Vicente, não muito longe da Bom Pastor, onde se situava a sede do jornal.

O Clamic não havia voltado do almoço. Partimos, então, Elizeu, eu e o Waltão, outro repórter-fotográfico.

Quando chegamos, logo percebemos a movimentação de dezenas de viaturas da PM e da Civil e muitos policiais fortemente armados. A versão que colhi junto a um deles era a seguinte: dois meliantes tentaram roubar uma residência vazia, os vizinhos perceberam e chamaram por socorro. Os ladrões se tocaram e deram área, saltando de quintal em quintal das casas geminadas. Até aquele momento, ninguém sabia se ainda estavam por ali.

Estávamos nessa conversa quando ouvimos um forte estrondo. Todos se assustaram. Os policiais engatilharam suas armas. Houve um corre-corre generalizado. Uma confusão.

Quando dei por mim estava dentro de uma farmácia no compartimento onde se aplica injeção, sabem qual?

Seo Elizeu, no bar estava no bar ficou.

O Waltão não teve dúvidas: atirou-se sobre a carcaça do Lixão – e ali se sentiu o mais inexpugnável dos mortais.

Na verdade, tudo não passou de um susto.

Foi apenas uma porta que bateu com o vento.

Mas, deu para perceber o tamanho da nossa coragem e o quanto Waltão confiava na velha Rural.

Hoje, pela manhã, vi uma camioneta parecida que se arrastava pela Vergueiro.

Na hora decidi a história que lhes contaria…

VI.

Por um motivo simples.

Com o passar dos anos, aposentamos nossa companheira de trabalho. Vieram Fuscas de todas as cores, Gols de vários calibres, Unos igualmente sacolejantes, uma voluntariosa Kombi e até dois Ladas que mais ficavam no conserto do que rodavam.

Ou seja, vários veículos de várias procedências.

Mas, nunca houve nada igual ao Lixão, primeiro e único. E era nosso. E verde.

* Este texto foi minha última colaboração para  Gazeta do Ipiranga, na edição em que o jornal completou 50 anos.

Cheguei à redação da Gazetinha em março de 1974, como redator-estagiário. Estava no terceiro ano do curso de jornalismo da ECA/USP.

Era editor e diretor-responsável quando saí em meados de 2003 para assumir  novos desafios e tocar integralmente a vida acadêmica.

Uma experiência marcante para mim – e para muitos que ali puderam vivenciar o dia a dia da missão que é ser jornalista.

Creio mesmo não ser imodesto dizer que, ao lado desses amigos em Gazeta do Ipiranga, participei de um conjunto de significativos avanços da então emergente imprensa comunitária bem como da reorganização social pós-ditadura, inegável pilar de uma sociedade democrática e cidadã.

Hoje, 26 de abril, a nossa Gazetinha completaria 63 anos de fundação. 

* Crônica também publicada no livro Meus Caros Amigos – Crônicas sobre jornalistas, boêmios e paixões (2010)

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1 Response
  • Aldo Martino Mango
    26, abril, 2021

    Eee Clamic….lembro dele, super inteligente!!! Conseguiu fotografar um OVNI kkkk. Nos deixou uma sábia lição, caso alguém ou algum fato infortúnio o incomode, o melhor é deixar passar…

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