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Dinoel e o apê sem paredes

“VISITE APARTAMENTO DECORADO”

Não resistiu ao chamamento da placa em frente ao prédio em fase de acabamento. Situava-se numa pequena rua, próxima a uma das grandes avenidas paulistanas.

— Bom dia. Meu nome é Cecília. Em que posso ajudá-lo?

A corretora do Plantão de Vendas fechou a revista feminina que estava lendo e veio atendê-lo. Logo se pôs a falar da ventura de morar num lugar como aquele, “uma ótima oportunidade de negócio”, com metrô a menos de 100 metros e “com acesso fácil ao que há de melhor em Sampa”.

— Mesmo se o senhor estiver pensando unicamente em investir. O retorno financeiro é garantido. Um juiz de Direito comprou duas unidades e…

A jovem senhora continuou o canto da sereia. Mas, decididamente, Dinoel pouco ou quase nada ouvia. Cinemark é pouco para o que acontecia. Sua mente serviu de tela para que cenas de um ‘velho’ filme voltassem ao cartaz.

Um ano antes, pouco mais pouco menos, também parou por ali e repetiu o mesmo trajeto de hoje. Com uma diferença. Entrou com o firme propósito de comprar um daqueles apartamentos; se possível, num dos andares mais altos. Queria fazer surpresa à morena Dagmar – então, a mulher da sua vida.

Pudera!

Viviam um momento bonito. Estavam apaixonados. Quer dizer, Dinoel estava. A recíproca talvez não fosse verdade. Mas, à época, ele acreditava que sim. Até porque sempre divertiam-se quando estavam juntos. Inclusive falavam em viver de um jeito incomum. Tinham planos – muitos – para ser felizes.

Viajariam sempre que pudessem. Conversariam muito sobre tudo e sobre todos. Os amigos seriam poucos, mas verdadeiros. Saberiam dar força um ao outro sempre que fosse necessário. Seriam felizes…

Ah! Planejavam morar num canto legal, um lugar que desse saída para todos os cantos da cidade. Se possível, com metrô por perto para que ambos pudessem escapar do martírio do trânsito paulistano.

Importante.

O apartamento não teria paredes internas a separar os cômodos. Assim, estariam juntos o tempo todo. Ouviriam a mesma música, assistiriam ao mesmo DVD, comeriam no mesmo prato. Amariam-se muito. Tudo. Loucamente…

É certo que, por vezes, ele precisaria ser tolerante porque a morena tinha uma estranha compulsão em assistir ao Programa do Ronnie Von – o cara é muito chato, ninguém merece. Ela, por sua vez, também precisaria ser paciente porque Dinoel não perdia um Sportcenter, o divertido programa esportivo de fim de noite na ESPN Brasil, com o Amigão Paulo Soares e o Antero Greco.

Mas isso, imaginava, se resolveria depois e solidariamente.

Um ano antes, aquele prédio de linhas clássicas lhe pareceu perfeito – ainda em fase inicial da construção – para a execução do projeto “Casa dos Sonhos”. Hoje, porém, entrou ali só por entrar.

— Então, vamos fechar negócio?

A corretora tinha plena certeza que o havia convencido. Afinal, uma expressão de encantamento brilhava em seu rosto. Chegou mesmo a lhe estender formulário e caneta para preenchimento.

Ele sorriu amarelo. Olhou o relógio, estava atrasado para o trabalho. Desculpou-se e repetiu à vendedora a última coisa que ouviu da mulher amada.

— Um dia, quem sabe?

• O romance de Dinoel e Dagmar foi tema de inúmeras crônicas neste site/blog. Começou em 28 de novembro de 2006 com o post “Água com Gás” e se estendeu até 25 de maio deste ano, com o título “Notícias do Dinoel”, com mais de 20 títulos.

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