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Lé com cré do jornalismo

“Tenho certeza absoluta de que milhares de leitores, quando abrem os jornais de manhã, são invadidos pelo mesmíssimo sentimento: em nome de São Gutemberg, para quem estes jornalistas acham que estão escrevendo? Em que planeta os editores de primeira página vivem ? Por acaso eles pensam que os leitores são marcianos recém-desembarcados no planeta? Ninguém avisou a esses jornalistas que a TV e os milhões de sites de notícias já divulgaram, desde a véspera, as mesmíssimas informações que eles agora repetem feito papagaios no nobilíssimo espaço da primeira página ?”

Em seu blog (www.geneton.com.br), o jornalista Geneton Moraes Neto postou um texto, de nome Os Jornalista Estão Enterrando o Jornalismo!, em que faz críticas contundentes aos jornalistas sem criatividade [especialmente os que fecham as primeiras páginas dos jornais diários, a quem chama de “coveiros da profissão”].

Concordo parcialmente com suas observações, e reconheço que o Jornalismo como um todo – e especialmente o impresso – passa por um momento de transição. De algum tempo, nós, jornalistas, não somos mais os únicos mediadores das demandas sociais. Essa tal de opinião pública, tão enigmática quanto uma esfinge, se forma a partir de outras tantas influências, das novelas – que forjam usam e costumes padrões “made in Ipanema” Brasil afora – às piadinhas dos humoristas cqcnianos.

De qualquer forma, vale a pena conferir (e refletir sobre) o texto de Geneton, um competente jornalista com algumas décadas de estrada.

II.

O contraponto ao comentário acima repasso a seguir.

Dois notáveis do jornalismo impresso, Clóvis Rossi e Carlos Heitor Cony, escreveram textos saborosos em suas colunas de ontem na página 2 da Folha de S. Paulo.

Clóvis Rossi:

“Até anteontem, só uma coisa me surpreenderia mais do que alguém me dizer que o Citibank poderia quebrar: se alguém me dissesse que o São Paulo poderia, algum dia, cair para a segunda divisão. Não que não seja desejável (a queda do são Paulo), mas a suposição é absurdamente irrealista.”

(…)

Pelo menos na minha memória, o Citi era, na área financeira, o equivalente ao São Paulo de hoje no futebol: forte, campeão sucessivas vezes, modelo. Mas era também mais arrogante do que os são-paulinos, pelo menos os que conheço mais de perto.”

III.

Carlos Heitor Cony:

“Ainda que eu tente durante mil séculos fazer uma laranja, basta o tempo de uma lambida para saber se ela está boa ou estragada. O mesmo vale para a organização do Estado: não saberia fazer melhor, mas sei que, como está, não presta.”

(…)

“Esse complicado intróito é para comentar o excesso de medidas provisórias que paralisam o congresso, transformando em conselho para referendar os decretos-lei dos tempos de qualquer ditadura. Na briga entre o rochedo e o mar, o Judiciário, que deveria guardar a Constituição e interpretar a lei, aproveita o vazio para decretar sua própria lei, criando o que já foi dito por aí: a pior forma de ditadura”.

IV.

Juntando lé com crê, ouso fazer a proposta.

Talvez esteja aí. No jornalismo interpretativo – que une informação, contextualização e opinião – o futuro dos jornais impressos. Ainda hoje o veículo que possui maior credibilidade junto aos leitores.

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