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Três breves histórias. Uma saudade

Foto: Igreja Imaculada Conceição, na avenida Nazareth. SP (Anísio Assunção)

I. 

Naquela ensolarada terça-feira de agosto de 2000…

Eu e o repórter-fotográfico Anísio Assunção paramos diante de um grande portão de madeira numa estreita estrada em Cotia, município da Grande São Paulo.

Olho no relógio. Pontualmente, nove horas.

Desço do carro e me identifico pelo interfone do que suponho seja uma chácara:

— Sou repórter do Jornal da Tarde e tenho uma entrevista marcada com o senhor Jair Rodrigues.

Do outro lado, a voz avisa que devemos esperar.

Minutos depois, o portão se abre. Um amplo terreno se apresenta diante de nós até chegarmos à residência.

Somos recebidos por uma espécie de governanta:

— O Sr. Jair já vem…

Enquanto aguardamos bate a sensação de que fizemos alguma travessura.

Ao menos, é o que observo pela expressão do Anísio que anda pra lá e pra cá.

Pergunto:

— Que cara é essa, Anísio?

Ele me responde com outra pergunta.

— Quer apostar que acordamos o homem?

Dito e feito!

Jair chega minutos depois, com um baita sorriso, e pede um café forte “para despertar”.

II. 

Era divertido trabalhar com o Anísio, o imprevisível.

Às vezes,ele  exagerava.

Mas, sempre um profissional competente, e dedicado.

Por isso, deixei-o de sobreaviso naquela outra tarde chuvosa em que iríamos entrevistar o ator Antônio Fagundes.

— Anísio, o cara tem fama de invocado. Não abra a boca, ok? Deixa comigo. Eu faço as perguntas, ok?

— Ok. Mas, o Fagundes, eu conheço de cor todas as novelas que fez. Eu acho que…

— Anízião, meu caro, vamos combinar? Você não acha nada. Faz as fotos, e sem chegar muito perto. Deixa que eu pergunto. Cada um na sua.

— Sem problema.

Chegamos 20 minutos mais cedo, o que percebemos soou como um alívio para as duas assessoras de imprensa.

— Que ótimo que vocês chegaram. O Fagundes detesta atrasos.

Fiz o tipo educado. Falei que era nossa obrigação, pois respeitamos nossos entrevistados e tal e cousa e lousa e mariposa.

E o Anísio quieto, na dele. Cumprimentou as moças com breve balançar da cabeça.

“Outra coisa”, disseram elas:

– Gostaria de avisar. Não há um tempo certo para a entrevista. Pode durar quinze minutos como pode ir além. Depende do rumo da conversa.

Olhei firme para o Anísio.

Queria me certificar se ele havia escutado o aviso. Na linha do “se for papo-furado, o ator encerra o papo”.

O fotógrafo apenas sorriu sem graça. Continuou em silêncio.

Pontualmente às 13h50, como estava previsto, Fagundes chegou, de camisa florida, e de mãos dadas com a então esposa, Mara Carvalho.

Foi simpático e disse que em cinco minutos conversaríamos.

Foi o que aconteceu.

Falamos por hora e tanto. Gostei da entrevista – e principalmente em saber como um ator se prepara e o quanto de informação vai buscar até formatar o personagem.

Mudo a pauta no transcorrer da conversa. Conversamos também sobre o espetáculo Últimas Luas em que o tema da velhice é discutido em meio a risos e lágrimas.

Percebo no transcorrer do encontro um Anísio sóbrio, formal.

Fez seu trabalho com tal discrição que me surpreendeu.

Já na rua, à espera do carro que nos levaria de volta à Redação, o fotógrafo continua em silêncio, mas não esconde a ansiedade.

— Vai, Anísio, desembucha. O que é que há?

— Será que eu voltar lá para fazer só uma perguntinha?

— Anísio! O cara está ensaiando.

— Mas, é uma perguntinha só.

— Que perguntinha Anísio?

— Assim: como é que é que é ser o rei do gado?

III.

Em nosso dia a dia no jornal, Anísio exercia outra função que ele me mesmo se impôs: a de ser versado e letrado em esclarecer o significado dos sonhos de cada um de nós.

Fazia mais e melhor: criava uns arabescos supostamente científicos para associar a trama do sonho com a centena ou a milhar que daria, naquele dia, no jogo do bicho ou na loteria.

Não tínhamos notícia de que o Anísio ou algum de seus orientandos conseguiu se dar bem nos sorteios. Mas, tolerávamos e nos divertíamos com as teorias que desenvolvia.

Sem qualquer consulta ao mago Anísio, um dos nossos, o Waltão acertou na milhar e ganhou uma pequena bolada na loteria.

Anísio, nosso expert no assunto, não se conformou: saiu em busca dos sinuosos sinais que resultaram no acerto.

De posse número vencedor, o rapaz fez um emaranhado de associações que, por fim, levaram o Waltão a tirar a sorte grande.

Ficamos curiosos.

Será que havia sentido nas palavras do Anísio?

Foi só o Waltão chegar, com pinta de novo milionário do pedaço, para fixarmos nossa atenção na chave do mistério.

Anísio não se acanhou.

Logo que pôde, tascou a inevitável constatação:

– Fala aí, Waltão, sei como você ganhou na loteria. Aposto que sonhou com sua cidadezinha, os tempos de crianças…

E o felizardo foi bem sincero na resposta:

– Não tive sonho nenhum, Anísio. Comprei o bilhete e nem vi qual era o número. Tinha até esquecido quando o senhor da lotérica me procurou e disse do prêmio.

Quem disse que o Anísio se deu por vencido diante da negativa de sua tese?

– Então, é isso. Você é que não está lembrando. Mas que sonhou, sonhou…

IV.

Assim era o Anísio Sérgio Assunção, o mineirinho falador e amigo de todos, o fotógrafo das mil e uma imagens, o faz-tudo da velha redação de piso assoalhado e grandes janelões para a rua Bom Pastor. Há anos que eu não o via ou tinha qualquer notícia do moço. Soube agora que ele se foi ainda em meados de outubro.

Que tristeza!

Ficaram as histórias, as lembranças e a infinita saudade em todos que o conheceram.

Que Deus o acolha e guarde em sua santa luz e bondade.

(foto: Face Book/Carmen Navarro)

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