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Silvaninha e o Sr. Destino

Silvaninha era uma jovem senhora que vivia um momento difícil e, ao mesmo tempo, inexplicável.

Tinha tudo o que alguém pode desejar – a vida estabilizada, família constituída, um bom emprego, saúde etc etc. Só não entendia o motivo de tamanha angústia a lhe apertar o coração e afligir a alma.

Não sei se chegou a ir a um psicólogo ou se assistiu a um desses programas do Globo Repórter de auto-ajuda, sei que resolveu atender ao conselho que recebera: fazer um bom check-up e, a partir daí, viver novos desafios.

II.

Foi o que fez dias depois.

Estava ótima, com tudo em cima.

Poderia agora dar início à nova etapa. Viajaria pelo mundo, conheceria países exóticos, gente diferente, experimentaria aventuras mais radicais como fazer rapel em cachoeira, andar de balão, saltar de paraquedas, descer rio abaixo em corredeira, até surfar na pororoca do rio Amazonas, pensou.

– Viver é sentir-se livre para o que der e vier. Às favas, as convenções. A rotina é o que mata as pessoas, confessou a si mesmo, quase em um murmúrio.

III.

A Sr. Destino, que tudo sabe, tudo vê, tudo ouve (até murmúrios murmurados impensadamente), achou digníssima e corajosa a atitude daquela senhora (de buscar a felicidade que lhe cabia) e resolveu intervir.

Apresentou-se sem maiores cerimônias e foi logo lhe tranquilizando:

– Silvaninha, minha cara, faça o que tiver que ser feito. Viva sua vida intensamente. Não se acanhe. Vejo aqui, em meus apontamentos no tablet, que terá uma jornada longa. Viverá mais 43 anos, oito meses, quatro dias, dezesseis horas, quatro minutos e catorze segundos, quer dizer, treze, ou melhor, doze…

A moça entendeu o recado e deu o devido desconto ao Sr. Destino, aquele que sabe passar, mas que sempre se atrapalha quando faz qualquer aparição pública.

IV.

Ficou feliz que só.

Tão empolgada com a boa notícia que resolveu dar uma geral na aparência para, já que iria viver tantos anos, recuperar agora a fina estampa que lhe coubera quando ainda era jovem e bela e sedutora.

– As mulheres adoram ser vistas, desejadas, comentadas…

(…)

Não tardou para que se internasse em uma clínica de cirurgia plástica e se dar ao desfrute de usar e abusar de tudo o que tinha direito.

Esticou daqui, puxou dali, colocou lentes que davam um tom esverdeado aos olhos, lábios de Angelina Jolie, uma pitadinha de Juliana Paes aqui, outra ali de Paola Oliveira, enfim… ficou uma gata, dessas de comercial de cerveja.

Vinte dias depois, teve alta e encantou-se com a imagem que viu refletida nas paredes espelhadas do prédio da própria clínica.

Sentiu-se poderosa.

Deu adeus a qualquer resquício de depressão e seguiu em frente.

V.

Na rua, percebeu os olhares dos homens (gulosos, apaixonados) e das mulheres (de pura inveja) enquanto passava languidamente.

Não viram nada ainda, pensou. Quando eu trocar os modelitos de hoje por outros mais ousados, aí sim é que serão elas.

VI.

Estava ainda no mundo encantado dos sonhos, quando atravessou a rua e…

(Sem chance)

… um caminhão desgovernado atropelou e matou a beldade.

Que tragédia!

VII.

Já na outra dimensão, Silvaninha, ainda desconsertada, resolveu tirar a limpo com o Sr. Destino porque ele lhe havia pregado aquela peça. Feito com que ela gastasse mundos e fundos na reforma da funilaria, a iludido com aquela torpe promessa.

– O Sr. me disse que eu viveria 43 anos etc etc… Lembra? E agora eu estou aqui, como se explica?

A entidade maior do tempo fez uma expressão de surpresa, e perguntou ainda incrédulo:

– Silvaninha, querida, é você?

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