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O atalho e o caminho…

Foto: Arquivo Pessoal

Por alguns muitos anos, eu e o Escova teimávamos em repetir o ritual da turma de malajmbrados – jornalistas e afins – que, naqueles idos e havidos tempos reunia-se no boteco chinfrim da esquina das ruas Bom Pastor com Greenfeld, onde hoje está a Estação Sacomã do Metrô.

Era nosso ponto de encontro dia sim e outro também.

Dali, malucosbelezas, jovens e inconsequentes, içávamos as velas das nossas mambembes embarcações para ganharmos os mares em mil e uma aventuras (que, talvez, e muito provavelmente, nunca tenham sido tão venturosas como hoje as lembramos).

Sem a vitalidade de outrora, ali por meados da segunda década do novo século, já na casa dos 50 e muitos, eu, o Escova e o Poeta (que, diga-se, não era daquele bando, mas juntou-se à dupla por gosto e falta de coisa melhor pra cuidar), escolhemos as manhãs de sábado para revirarmos o baú das nossas lembranças num boteco qualquer sempre nas quebradas do antigo Ponto Fábrica, no distrito do Sacomã, São Paulo, Brasil. CEP… (Fico devendo o CEP).

Ali, bebericávamos (mais o Escova e Poeta do que eu, sou sincero) em nome da saudade dos amigos que partiram antes do combinado e de outros ausentes por gosto e opção. Conversávamos e conversávamos sobre os companheiros, o jornalismo e as generalidades da vida.

Dá para dizer que, à nossa maneira, passávamos a limpo nossa própria história e a história do Brasil e do mundo.

Dá para dizer também que, reconheça-se, era uma vã tentativa de se ludibriar a saudade – e, de alguma forma, redimensionar o verso do gaúcho poeta Mario Quintana, referencial de sabedoria e sensibilidade para mim, para o Escova e o amigo Poeta que, apesar do apelido, não era do babado de versar:

“Ai de mim,

Ai de ti, ó velho mar profundo,

Eu venho à tona de todos os naufrágios!”

Mas, houve um sábado que, assim que nos encontramos, deu para perceber que estávamos injuriados. Não sabíamos o motivo da bronca que carregávamos no peito – e foi exatamente este o ponto inicial da nossa conversa. Esquecemos o futebol, as fofocas da semana, as questões da política, as lembranças e ambos dividimos numa lanchonete recém-inaugurada uma Coca Zero, o que, para mim, era normal; mas para o Escova era um duplo pecado mortal: trocar o boteco por uma casa de fast-food e, de quebra, beber refrigerante.

Percebi que estávamos mal mesmo.

Não lembro bem. Mas, foi agosto ou setembro de 2013. O Brasil claudicava nos rastro daquelas manifestações fascitoides e ensandecidas.

– Estamos, outra vez, sem rumo e sem prumo. A coisa toda vai degringolar. É questão de tempo. E não há nada que eu ou você ou Poeta possamos fazer, meu caro.

Foi a enigmática frase do Escova antes de nos despedirmos.

Pesou-nos o silêncio.

Achei que o amigo estava em delírio, dada a voluntária abstinência.

Não era, não.

Só tristeza mesmo com a estupidez solta e incontrolável que leu no noticiário do dia.

Tantos e tantos anos depois.

Longe do Escova que se mudou para a França semanas depois do impeachment da Dilma, com a profética frase: “Vai ser a barbárie, meu caro”.

Longe do Escova e sem notícia do Poeta que escafedeu-se sei lá para onde – rememoro aqueles idos e tenho que escrever. Mas, sinceramente, não tenho o que escrever.

Pesa-me o silêncio.

Sem tê-los por perto para perolações e eventuais ‘viagens’ sem sair do balcão, busco nos portais a notícia do dia e pondero comigo mesmo: não tenho como reverberar (e comemorar, enfim) a boa nova que acabo de ler.

Deu hoje no Uol:

Regra do Bolsa Família fez Brasil atingir maior IDH da história, aponta ONU

Há que se entender a distinção entre “atalhos’ e “caminhos”.

Por vezes, um e outro se fazem necessários num dado momento para correção da rota.

Qual rota?

Aquela que se propõe “a construção de um Brasil de todos os brasileiros”.

(Expressão que ouvi do ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri numa noite luminosa que se perdeu nos desvãos do tempo…)

E aí o que me dizem, os caríssimos leitores?

TRILHA SONORA

1 Response
  • Denise Leme
    26, maio, 2026

    Querido Rodolfo,
    Não sabia que era jornalista e quero te parabenizar pela otima crônica , melancólica como pede o Brasil de hoje. Nossa geração está muda, não por falta de recursos linguísticos, mas pelo choque dos descaminhos que tomou de assalto a nossa República, se é que ainda podemos chamá-la assim.
    Muito obrigada por nos brindar com seu texto e com as belas referências culturais brasileiras, perdidas entre muitos de nós, Mário Quintana e Walter Franco. Muito obrigada!
    Denise.

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